1. Mas, afinal, o que são espasmos musculares?
  2. Quais são as causas dos espasmos musculares?
  3. Espasmos musculares decorrentes da Epilepsia
  4. Como a Cannabis age no tratamento dos espasmos musculares?
  5. Pesquisas científicas sobre o tratamento de espasmos musculares com Cannabis
  6. Esclerose múltipla e o tratamento com Cannabis
  7. Conclusão

De forma geral, os espasmos musculares podem acontecer por vários motivos — desde transtornos de humor e estresse até disfunções neurológicas.

A epilepsia é uma dessas doenças neurológicas, que se caracteriza principalmente pelas descargas elétricas anormais e excessivas no cérebro. É o que gera as convulsões (ou ataques epiléticos)

Além da epilepsia, outras condições podem causar espasmos musculares como Parkinson, esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica (ELA), distonia (contração muscular involuntária de longa duração) e lesões na medula espinhal também resultam na degeneração progressiva dos neurônios.

Nem sempre os remédios anticonvulsivantes são suficientes para controlar a repetição das crises, muito menos promovem a cura da doença.

Nesse contexto, resultados de pesquisas científicas dos últimos anos demonstraram a eficiência do uso medicinal como uma alternativa de tratamento para o tratamento de espasmos musculares.

Por esse motivo, o objetivo desse artigo é refletir sobre o tratamento de espasmos musculares com canabinoides (principalmente CBD e THC), em especial a partir de evidências científicas.

Mas, afinal, o que são espasmos musculares?

Os espasmos musculares podem acontecer normalmente durante o cotidiano de uma pessoa saudável em diferentes ocasiões. Se trata de um dos mecanismos naturais de resposta protetora do organismo.

Mas, de forma geral, trata-se de uma contração involuntária das fibras musculares, músculos ou de um grupo de músculos e, muitas vezes, vem acompanhado de dor no local.

Os espasmos musculares são uma das causas mais comuns de dores nas costas, mas podem acontecer em diferentes partes do corpo — inclusive nos olhos.

Quais são as causas dos espasmos musculares?

Os espasmos musculares podem ser provocados por várias situações, por exemplo:

  • Estresse;
  • Sobrecarga muscular;
  • Má qualidade do sono;
  • Traumas;
  • Estiramento de músculos ou ligamentos;
  • Fratura;
  • Atividade física intensa;
  • Desidratação durante exercícios prolongados;
  • Gravidez, devido às alterações posturais e redução dos níveis de cálcio;
  • Deficiência de minerais e vitaminas;
  • Hipoglicemia;
  • Medicamentos (como Clonazepam, por exemplo);

Espasmos musculares decorrentes da Epilepsia

A epilepsia é uma doença cerebral crônica caracterizada pela recorrência de crises epilépticas periódicas e imprevisíveis. Durante essas crises epilépticas ocorrem os espasmos musculares.

De fato, a epilepsia e esclerose múltipla são uma das doenças que mais causam espasmos musculares. Não por menos, temos tópicos especiais para elas neste artigo.

A epilepsia tem consequências neurológicas, cognitivas, psicológicas e sociais que prejudicam diretamente a qualidade de vida da pessoa.

A constante ocorrência de crises epilépticas pode prejudicar gravemente a qualidade de vida do paciente, causando danos cerebrais, especialmente no período de desenvolvimento.

Sendo assim, o tratamento da epilepsia com foco especial em controlar a ocrrência das crises convulsivas é extremamente importante.

No entanto, na maioria dos casos, os medicamentos anticonvulsivantes disponíveis não são capazes de promover a cura da doença. Apenas servem para controlar a repetição das crises convulsivas. Ou seja, promover qualidade de vida.

Existem casos, inclusive, de pacientes epilépticos que apresentam resistência ao tratamento farmacológico. É o que chamamos de “epilepsia refratária” ou “farmacorresistente”.

Como a Cannabis age no tratamento dos espasmos musculares?

É importante notar a diferença entre espasmos musculares causados por doenças neurológicas daqueles causados por doenças que se relacionam ao próprio músculo.

O tratamento com Cannabis atua nos espasmos musculares causados por doenças neurológicas. Isso porque a Cannabis atua no sistema nervoso, não no sistema muscular.

Alguns pacientes têm efeitos adversos dos medicamentos anti-espáticos convencionais como, por exemplo, sedação excessiva, confusão e alucinação. Para outros, a espasticidade persiste apesar do tratamento.

O valor medicinal da Cannabis, popularmente conhecida como maconha, vem sendo objeto de estudo pela comunidade médica.

Seus princípios ativos (os canabinoides) têm muitas propriedades farmacológicas, especialmente analgésica, antiemética, antioxidativa, neuroprotetora e anti-inflamatória.

O canabidiol ou CBD é um composto abundante em algumas espécies de maconha, que constitui aproximadamente 40% das substâncias ativas da planta.

O óleo de CBD vem sendo usado para tratar transtornos de ansiedade, depressão, esquizofrenia, infecções, diabetes, esclerose múltipla e epilepsia, dentre outras doenças.

Qual a forma de atuação da Cannabis?

Para entender melhor como os canabinóides atuam no corpo humano, é preciso entender algo chamado Sistema Endocanabinoide.

O Sistema Endocanabinóide é o nome de uma série de receptores celulares que respondem a certos tipos de substâncias. Dois receptores primários de células compõem o sistema: receptor canabinóide 1 (CB1) e receptor canabinóide 2 (CB2).

As chaves para esses receptores são chamadas de endocanabinóides, ou canabinóides. Os receptores canabinóides respondem a vários canabinoides e, por sua vez, produzem efeitos distintos dentro do corpo.

Os canabinóides mais utilizados no tratamento de epilepsia, principalmente nos pacientes que apresentam quadros refratários (que não respondem ao tratamento) aos medicamentos convencionais, são o THC e o CBD.

O canabidiol (CBD) é um poderoso anti-inflamatório com algumas propriedades anticonvulsivantes e o tetra-hidrocanabinol (THC) é um relaxante muscular potente e composto antiespasmódico. Estes compostos trabalham em sinergia no combate às crises epiléticas.

O relatório de 1999 do Instituto de Medicina dos Estados Unidos já havia sugerido evidências de que os receptores canabinóides CB1 e CB2 estariam envolvidos no controle de espasmos musculares associados a crises de epilepsia.

Concluiu-se que os compostos ativos da Cannabis são potencialmente eficazes no tratamento de condições neurológicas e, portanto, deveriam ser testados rigorosamente em ensaios clínicos.

E o que dizem os ensaios clínicos? Vamos entender o que dizem as pesquisas científicas sobre o tema.

Pesquisas científicas sobre o tratamento de espasmos musculares com Cannabis

Espamos musculares e cannabis medicinal
Créditos da imagem: TheWeedBlog

Um estudo da Inglaterra teve como objetivo avaliar a eficácia do óleo de CBD para tratar convulsões resistentes a medicamentos em pacientes portadores da Síndrome de Dravet.

A síndrome de Dravet é um distúrbio epiléptico infantil associado a convulsões severas e a uma alta taxa de mortalidade.

Os resultados sugeriram que o tratamento com óleo de canabidiol resultou em uma redução maior na frequência de convulsões, quando comparado ao tratamento placebo.

Outros estudos foram focados em espasmos musculares em crianças, especialmente relacionados à síndrome de Dravet, aos espasmos infantis (IS) e à Síndrome de Lennox-Gastaut (SLG).

Oitenta e cinco por cento dos pais relataram uma redução na frequência de crises espasmódicas, e 14% relataram total não ocorrência dessas crises.

Esses resultados sugerem que o canabidiol é seguro e eficaz, destacando assim o seu potencial como uma nova opção de tratamento para espasmos epilépticos.

Esclerose múltipla e o tratamento com Cannabis

A esclerose múltipla é uma doença auto-imune. Ou seja, o próprio sistema imunológico de uma pessoa promove ataques contra seu cérebro e sistema nervoso central, resultando em sintomas que prejudicam a vida do portador de esclerose. Um dos principais sintomas é a espasticidade muscular, causando rigidez e contração involuntária. 

Em 2010, pesquisadores comprovaram efeito benéfico da Cannabis inalada na ocorrência de muitos espasmos, entre os pacientes que não demonstraram melhora significativa com os tratamentos tradicionais.

O estudo realizado foi controlado por placebo e envolveu pacientes adultos com esclerose múltipla e espasmos musculares.

Já um estudo mais recente de 2023 demonstrou os mesmos benefícios, dessa vez utilizando um medicamento em forma de Spray, comercializado no Brasil como Mevatyl. Participaram do estudo 347 pacientes divididos entre placebo e a medicação à base de Cannabis.

Após o tratamento de 12 semanas, no grupo que recebeu a medicação foi visto uma melhora que variou entre 19-35% em relação aos pacientes que receberam placebo.

O Mevatyl foi o primeiro medicamento à base de Cannabis registrado no Brasil, aprovado para uso desde 2017, ele é indicado para o tratamento dos espasmos musculares causados pela esclerose múltipla. O medicamento possui uma concentração de 27 mg/mL de THC e 25 mg/mL de CBD.

Uma revisão sistemática feita em 2023 analisou outros cinco estudos feitos em pacientes com esclerose múltipla.

Os resultados observaram uma melhora de até 45% nos espasmos musculares, que se relacionou também a uma melhora na qualidade de vida, possibilitando o desenvolvimento das atividades básicas do cotidiano.

Conclusão

Diversos países, incluindo Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, aprovam o THC e o CBD como um tratamento adicional para a melhora dos sintomas em pacientes com espasmos musculares moderados e graves.

Mesmo assim, muitas famílias não recorrem aos canabinoides devido ao preconceito e à falta de informação.

O tratamento é aprovado quando pacientes não respondem adequadamente a outros medicamentos antiespasmódicos (que combatem espasmos) e que demonstram melhora significativa dos sintomas relacionados à espasticidade durante uma tentativa inicial de terapia.

No Brasil já é possível utilizar a maconha de forma legal para o tratamento dos espasmos musculares. Existem diferentes formas de acesso, como associações de pacientes, importação e compra diretamente nas farmácias. 

Para o início em todos os caminhos é necessário uma receita médica, por isso indicamos buscar um profissional capacitado para prescrever produtos à base de Cannabis e assim ter um acompanhamento adequado.

Aqui expomos alguns casos de sucesso no tratamento de espasmos musculares associados a epilepsia com maconha medicinal.

É importante ressaltar que esse é um tratamento complementar, pois não cura efetivamente a epilepsia, mas promove melhora na qualidade de vida pela redução dos sintomas da doença e seus surtos.

Além de ajudar com espasmos musculares, a Cannabis já é comprovadamente usada no tratamento de diversas outras doenças.

Por esse motivo, cada vez mais países estão mudando as políticas de drogas e regularizando o uso de maconha medicinal. Os usos medicinais da maconha fazem parte da história dessa planta e foram explorados por diferentes povos ao  longo do anos. 

Esperamos que a luta pelo direito ao acesso da maconha medicinal se torne cada vez maior e poderosa e um dia, que todos os humanos possam desfrutar das propriedades de cura desta medicina milenar.

FONTES

Watson S., Benson J.A. Jr, Joy J.E. (2000). Marijuana and medicine: assessing the science base: a summary of the 1999 Institute of Medicine report. Arch Gen Psychiatry. 57(6):547-52.

Orrin Devinsky, J. Helen Cross, Linda Laux, Eric Marsh, Ian Miller, Rima Nabbout, Ingrid E. Scheffer, Elizabeth A. Thiele, and Stephen Wright. (2017) Trial of Cannabidiol for Drug-Resistant Seizures in the Dravet Syndrome. Cannabidiol in Dravet Syndrome Study Group.

Jody Corey-Bloom, Tanya Wolfson, Anthony Gamst, Shelia Jin, Thomas D. MarcotteHeather Bentley, and Ben Gouaux. Smoked cannabis for spasticity in multiple sclerosis: a randomized, placebo-controlled trial. (2010) CMAJ. 184(10): 1143–1150.

Hussain S.A., Zhou R., Jacobson C., Weng J., Cheng E., Lay J., Hung P., Lerner J., Sankar R. (2015). Perceived efficacy of cannabidiol-enriched cannabis extracts for treatment of pediatric epilepsy: A potential role for infantile spasms and Lennox-Gastaut syndrome. Epilepsy Behav, 47:138-41.

Elena Abati, Evan Hess, Amy Morgan, Patricia L. Bruno, Elizabeth Thiele. (2015). Cannabidiol treatment of refractory epileptic spasms: an open label study. American Epilepsy Society. (Abst. 3.404).