Sumário
- O que é Epilepsia Refratária?
- Mas por que a Epilepsia Refratária acontece?
- Cannabis medicinal no tratamento de Epilepsia Refratária
- Estudos científicos sobre o uso de Cannabis para Epilepsia Refratária
- Estudos no Brasil sobre o uso de CBD para epilepsia infantil
- Depoimentos do uso da Cannabis na Epilepsia Refratária
- Associações pelo tratamento da Epilepsia Refratária com maconha medicinal
- Conclusão
A Epilepsia é uma condição que atinge mais de 50 milhões de pessoas no mundo todo, de acordo com dados do Governo Federal.
Epilepsia Refratária é uma das terminologias para se referir a um quadro grave de epilepsia que tem difícil controle apesar de usar diferentes medicamentos.
O conceito de epilepsia de difícil tratamento diz respeito ao quanto essas crises repercutem na qualidade de vida da pessoa. Incluindo repercussões neuropsicológicas, comportamentais e sociais.
Embora existam fármacos antiepiléticos eficientes para pacientes de Epilepsia, aproximadamente um terço dos pacientes de Epilepsia Refratária resistem ao tratamento medicamentoso.
Se você, seu filho, um familiar próximo ou mesmo um amigo querido tem Epilepsia, você sabe as dificuldades no tratamento e a importância das informações sobre o uso de canabidiol no tratamento de epilepsia.
Afinal de contas, quem conhece essa condição de perto sabe das dificuldades que afetam a qualidade de vida da pessoa portadora e das outras pessoas que estão à sua volta.
Pensando nisso, o objetivo desse artigo é refletir sobre os benefícios do uso medicinal da Cannabis no tratamento de Epilepsia Refratária, especialmente a partir de evidências científicas.
O que é Epilepsia Refratária?
Em linhas gerais, Epilepsia é uma condição em que a pessoa possui um distúrbio neurológico, fazendo com que ocorra frequentes convulsões, onde há surtos na atividade elétrica do cérebro.
Essa condição se caracteriza por um distúrbio cerebral complexo que envolve descargas elétricas cerebrais anormais, excessivas e sincrônicas dos neurônios.
Existem dois tipos principais de convulsões: as convulsões generalizadas, que afetam todo o cérebro, e as convulsões parciais, que afetam apenas uma parte do cérebro como o próprio nome diz.
Uma convulsão leve pode ser difícil de reconhecer. Pode durar alguns segundos durante os quais a pessoa não tem consciência. ,
Convulsões mais fortes podem causar espasmos e contrações musculares incontroláveis e podem durar de alguns segundos a vários minutos.

Qualquer pessoa pode desenvolver Epilepsia, mas é mais comum em crianças pequenas e adultos mais velhos, sendo mais recorrente no gênero masculino. A Epilepsia também pode surgir em decorrência de tumores ou AVC.
Quando falamos em Epilepsia Refratária, queremos dizer que essa condição é de difícil tratamento e, em geral, possui evolução desfavorável. Ou seja, que tende a piorar com o passar dos anos.
Na maioria dos casos, se caracteriza como refratária porque já usaram mais de dois tipos de remédios diferentes e as crises ainda continuam.
A Epilepsia Refratária em crianças é ainda mais desafiadora e prejudicial, já que impacta o sistema nervoso que ainda está em desenvolvimento.
O diagnóstico precoce dessa condição permite começar os tratamentos e diminuir os efeitos das crises de ataques epilépticos nas crianças.
Mas por que a Epilepsia Refratária acontece?
Embora a causa da epilepsia, para mais de 50% dos portadores, seja desconhecida, existem várias razões pelas quais ela pode ocorrer dependendo do estágio da vida:
Causas comuns da epilepsia em bebês recém-nascidos
De forma geral, as principais causas de epilepsia em bebês recém-nascidos são:
- Falta de oxigênio no parto;
- Injúrias no cérebro durante o parto;
- Desenvolvimento anormal do cérebro;
- Desordens metabólicas.
Causas comuns da epilepsia em crianças
Já em crianças, as principais causas são:
- Febre;
- Infecções;
- Traumas na cabeça;
- Tumores no cérebro;
- Desordens genéticas;
- Cicatrizes no cérebro.
Causas comuns da epilepsia em adultos
Por fim, em adultos, as principais causas de epilepsia são:
- Traumas na cabeça;
- Tumores no cérebro;
- Cicatrizes no cérebro;
- Desenvolvimento anormal do cérebro;
- Acidente vascular encefálico (mais comum em idosos).
Cannabis medicinal no tratamento de epilepsia refratária
Talvez você pense que o uso da maconha para o tratamento de doenças seja algo novo (e até disruptivo) mas isso não é verdade. Às vezes nos esquecemos que antes dos medicamentos químicos, tudo o que tínhamos eram as plantas.
É exatamente isso o que relata algumas revisões científicas sobre o uso ancestral da maconha medicinal. O registro mais antigo sobre o assunto foi em 2.700 aC. na China.
Um pouco mais à frente, em 1.800 aC., descobriram anotações de médicos sumérios e acadianos mencionando uma planta medicinal (provavelmente a maconha) para tratar uma variedade de doenças, incluindo convulsões noturnas.
Na literatura árabe também há registros do uso específico da Cannabis como tratamento para convulsões e epilepsia.
Como funciona os efeitos da Cannabis no tratamento de epilepsia?
A maconha possui esse efeito medicinal porque apresenta canabinóides, como canabidiol (CDB) e o tetrahidrocanabinol (THC) que possuem efeitos anticonvulsivantes.
Estudos mostram que o THC pode ter ações semelhantes à substância anandamida, que é um endocanabinoide. Ou seja, que nosso próprio organismo produz naturalmente.
Dessa forma, o CBD regula as descargas de neurotransmissores nos neurônios pré-sinápticos, diminuindo as convulsões na frequência e intensidade e não causando efeitos psicoativos significativos.
No vídeo abaixo você pode ver de maneira mais ilustrativa como ocorre a epilepsia e como a Cannabis pode ajudar em seu tratamento:
Estudos científicos sobre o uso de Cannabis para Epilepsia Refratária
A primeira descrição moderna detalhada da utilidade dos produtos à base de Cannabis como medicação anticonvulsiva foi publicada em 1843 por W.B. O’Shaughnessy, médico e professor de Química e Matéria Médica na Faculdade de Medicina de Calcutá.
Depois de testar os efeitos comportamentais de várias preparações de Cannabis indica em em pacientes com diferentes distúrbios, constatou efeitos marcantes de anticonvulsivantes em uma menina de 40 dias com crises convulsivas recorrentes.
Posteriormente, observações semelhantes foram feitas por outros médicos e cientistas, indicando os efeitos contra convulsões da maconha medicinal.
No entanto, foi mais recentemente que o interesse da população e comunidade médica aumentou acerca da maconha medicinal no tratamento da Epilepsia Refratária.
Dessa forma, o primeiro estudo randomizado, controlado com placebo e duplo-cego sobre o CBD na síndrome de Dravet foi publicado no New England Journal of Medicine em 2017. Esse estudo tem alto valor científico e seus resultados são extremamente confiáveis.
Neste estudo, analisou-se 120 pacientes com diagnóstico de síndrome de Dravet (idade média de aproximadamente 10 anos) de 23 centros nos EUA e na Europa que receberam, de forma aleatória, placebo (substância sem valor medicinal) ou 20 mg/kg /dia de CBD em duas administrações diárias divididas .
A duração do tratamento foi de 14 semanas e a frequência mensal de convulsões convulsivas diminuiu de 12,4 para 5,9 no grupo que recebeu com CBD e de 14,9 para 14,1 no grupo placebo.
Além disso, a proporção de pacientes com redução de maior ou igual 50% na frequência de crises convulsivas foi de 43% no grupo com CBD em comparação com 27% no grupo placebo.
Outro resultado impressionante foi o de que três pacientes (5%) ficaram livres de crises durante o período de tratamento no grupo com CBD em comparação com nenhum no grupo placebo.
Esses resultados demonstram o valor da Cannabis para o tratamento da Epilepsia Refratária, que nesse caso é a síndrome de Dravet, em adição ao tratamento convencional da síndrome.
Estudos no Brasil sobre o uso de CBD para epilepsia infantil
No Brasil, o Professor Elisaldo Carlini, da UNIFESP apresentou, através de um estudo, que pacientes adultos tiveram cessão ou redução das convulsões pelo uso do canabinóide CBD.
Em 2015 foi apresentado no III Congresso Internacional e XVIII Brasileiro da ABENEPI (Associação Brasileira de Neurologia, Psiquiatria Infantil e Profissões Afins) um estudo com 38 pessoas com Epilepsia Refratária que fazem uso de óleo de cannabis rico em CBD.
O trabalho dos Dr.Paulo Fleury, Prof. Renato Malcher e Dr. Leandro Ramires, demonstrou diminuição da frequência e intensidade das convulsões na maioria dos pacientes que usou canabidiol no tratamento da epilepsia.
Já em 2022 foi feita uma revisão meta-análise, que é considerada o nível máximo de evidência científica. A revisão reuniu 3 estudos feitos em humanos que totalizaram 1034 pacientes.
Os pacientes foram tratados com diferentes dosagens por cerca de 12 semanas. Como resultado, houve uma diminuição nas crises convulsivas, ultrapassando mais de 50% na redução.
Outra revisão brasileira, mostrou que o tratamento feito com um óleo “Full-spectrum” que contém todos os componentes da planta, requer uma menor dosagem quando comparado ao uso do óleo isolado de Canabidiol.
Isso se dá devido ao “efeito entourage” ou “efeito comitiva”, que faz todos os compostos da planta agirem juntos. O que pode potencializar seu efeito, dependendo da mistura que se é feita.
Além desses estudos, vale a pena olhar os depoimentos de pessoas que realmente testaram a maconha medicinal para tratar diferentes tipos de epilepsia.
Depoimentos do uso da Cannabis na Epilepsia Refratária
Em março de 2017, um estudo no México coletou mais de 50 depoimentos de crianças com Epilepsia Refratária. Para isso, a pesquisa distribuiu um questionário aos pais que administraram óleo de CBD às crianças com o diagnóstico.
Com o uso do óleo de canabidiol para epilepsia, 81,3% dos pais viram a frequência de convulsões reduzida, assim como a duração e intensidade das convulsões.
Além disso, em 16% dos casos, as convulsões pararam completamente. Eles também notaram uma melhoria na qualidade de vida em geral, regulação do humor e até mesmo um aumento na estrutura cognitiva.
Outros estudos em Israel acompanharam 74 pacientes com epilepsia refratária por 3 meses, orientando o uso de CBD sublingual e óleo de THC 3 vezes ao dia. Após os 3 meses, 89% dos pacientes afirmaram que a frequência de suas convulsões diminuiu de forma considerável.
Para visualizar e entender melhor sobre todos os benefícios da maconha medicinal em diversas doenças, mas especialmente na Epilepsia Refratária, recomendo fortemente o documentário brasileira “Ilegal”:
Você pode conseguir o tratamento da Epilepsia Refratária com óleos de CBD através de associações formadas para lutar pelo acesso à cannabis medicinal no Brasil.
Associações pelo tratamento da Epilepsia Refratária com maconha medicinal
A Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (AMA+ME) foi fundada por mães buscando uma nova forma de tratamento para seus filhos com epilepsia grave e resistentes aos tratamentos convencionais.
A AMA+ME é formada por pacientes, familiares e colaboradores com o intuito de promover, garantir, consolidar e expandir os direitos dos pacientes da maconha medicinal.

A associação também mantém relação com universidades, ampliando o conhecimento sobre o tema em congressos, palestras ou mesmo pelo incentivo para pesquisas acadêmicas.
Ademais, as pessoas associadas possuem apoio jurídico para orientar e auxiliar portadores de doenças e familiares na autorização e custeio de medicamentos contendo canabinóides.
Outra importante associação é a Associaço Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (ABRACE), que busca apoiar e colaborar com famílias que precisam da maconha medicinal.

A associação tem produção de óleo enriquecido de canabinóides (Óleo Esperança) e ainda conta com convênio com o Instituto Nacional do Semiárido (INSA) para pesquisar e analisar essa produção.
A ABRACE também possui assessoria jurídica para os associados e em 2017 recebeu autorização definitiva para o cultivo de Cannabis para fins medicinais.
No site da associação ainda é possível verificar que a ABRACE já ajudou mais de 30.000 pessoas no tratamento com a Cannabis.
Conclusão
A Epilepsia Refratária é uma condição que debilita as pessoas portadores e afeta todas as pessoas que estão por perto.
No entanto, já existe comprovação científica de que o tratamento com Cannabis é eficiente para diminuir os sintomas e diminuir os danos colaterais.
Diversos estudos, inclusive brasileiros, comprovam o significativo aumento da qualidade de vida das pessoas portadoras da doença com o tratamento com maconha.
Além disso, depoimentos reais evidenciam a importância desse tratamento na vida de pessoas com Epilepsia Refratária, sendo notória a urgência e relevância do assunto.
Embora ainda tenhamos algumas barreiras, hoje há algumas formas de conseguir o óleo de CBD no Brasil. A maneira mais simples e barata de obter medicamentos à base de cannabis é por meio das associações.
Outra forma é através do auto cultivo e da fabricação caseira do óleo de cannabis. O cultivo ainda é ilegal no Brasil. No entanto, em alguns casos, a justiça concede um habeas corpus concedendo permissão para cultivar Cannabis e usá-la para o tratamento.
Conseguir um habeas corpus pode ser um processo mais complexo e burocrático. Mas a independência de produzir o próprio óleo pode valer a pena.
Além da Epilepsia Refratária, já existe comprovação da eficácia da Cannabis para o tratamento de diversas outras doenças — desde ansiedade, câncer, depressão, dentre muitas outras.
Por isso, a difusão dos conhecimentos em alinhamento à luta pelo acesso universal e gratuito da Cannabis para uso medicinal é tão importante.
Gostou do texto? Você conhece alguém com Epilepsia Refratária que faz tratamento com maconha medicinal? Ficou com alguma dúvida? Deixe seu comentário abaixo!

Farmacêutica, neurocientista e antiproibicionista.
Mentranda em neurociências pela UFSC. Pesquisadora da Cannabis. Amante das plantas e da ciência. Acredito que a conhecimento é uma das formas para expansão da consciência e por isso luto para propagar ele.
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