O que é e quais os sintomas de depressão e quais são as evidências científicas sobre o tratamento com Cannabis.
Sumário
- Quais são os sintomas da depressão?
- Como é o diagnóstico de depressão?
- Classificações dos transtornos depressivos
- Qual a causa da depressão?
- Qual é o tratamento para depressão?
- O tratamento com a Cannabis para depressão
- Estudos científicos sobre a Cannabis como tratamento da depressão
- Considerações finais
A depressão é a doença mais incapacitante do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mais de 300 milhões de pessoas são afetadas por ela em todo o mundo.
Apesar de existirem diversos tipos de tratamentos, alguns pacientes apresentam dificuldades, como efeitos colaterais das medicações e resistência ao tratamento.
Sendo assim, surgem dúvidas sobre a efetividade de tratamentos alternativos à medicina tradicional.
Uma das alternativas é a Cannabis. Mas, será que a Cannabis pode mesmo ajudar? O que as evidências científicas dizem sobre isso?
Diante de todo esse contexto, esse artigo discute sobre os principais sintomas de depressão e, principalmente, o que a ciência diz sobre o tratamento de Cannabis para essa doença.
Quais são os sintomas da depressão?
Antes de mais nada, é importante dizer que os sintomas da depressão podem variar em intensidade e duração.
Isso significa que pessoas com depressão podem apresentar sintomas diferentes. E, mesmo assim, eles podem durar pouco ou muito tempo; ser forte ou fraco.
No entanto, incluem uma combinação de sintomas emocionais, físicos e comportamentais.
Aqui estão os sintomas mais comuns:
Sintomas emocionais
Os principais sintomas emocionais são:
- Humor deprimido ou tristeza recorrente;
- Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada;
- Sentimentos de vazio ou desesperança;
- Perda de interesse ou prazer em atividades que antes eram prazerosas;
- Ansiedade ou inquietação;
Sintomas físicos
Os principais sintomas físicos são:
- Perda ou ganho de peso
- Insônia ou sonolência excessiva
- Agitação ou retardo psicomotor
- Fadiga ou perda de energia
- Dores e desconfortos físicos inexplicáveis
- Problemas digestivos
Sintomas cognitivos
Os principais sintomas cognitivos são:
- Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão
- Pensamentos recorrentes de morte ou ideação suicida recorrente
- Pensamentos lentos
Sintomas comportamentais
Os principais sintomas comportamentais são:
- Isolamento social ou retirada de atividades sociais
- Aumento no uso de substâncias (álcool ou drogas)
- Comportamento irritável ou agressivo
- Diminuição do desempenho no trabalho ou na escola
Nem todas as pessoas vão manifestar todos os sintomas listados, eles são apenas exemplos. A intensidade e a combinação dos sintomas podem variar de pessoa para pessoa.
É importante ter atenção a eles, para buscar diagnóstico e tratamento adequados.
Como é o diagnóstico de depressão?
O diagnóstico de depressão é clínico, feito a partir da identificação e análise dos sintomas.
É importante uma consulta com um profissional especialista, psicólogo ou psiquiatra, para acompanhar e tratar a doença.
Dependendo dos sintomas, indica-se que a pessoa consulte ambos profissionais, já que eles têm uma visão complementar.
Esses profissionais podem definir o diagnóstico e recomendar o tratamento adequado.
Classificações dos transtornos depressivos
Quando falamos em depressão, achamos que estamos sempre nos referindo a mesma doença, mas na verdade ela é classificada de formas diferentes.
Segundo o DSM-5, que serve como um manual para ajudar no diagnóstico de transtornos mentais, os transtornos depressivos recebem as seguintes classificações:
- Transtorno depressivo maior
- Transtorno disruptivo de desregulação do humor
- Transtorno depressivo persistente (distimia)
- Transtorno disfórico pré-menstrual
- Transtorno depressivo induzido por substância/medicamento
- Transtorno depressivo devido a outra condição médica
- Outro transtorno depressivo especificado
- Transtorno depressivo não especificado
O transtorno depressivo maior representa a condição clássica desse grupo de transtornos.
Ele se caracteriza por episódios distintos de, pelo menos, duas semanas de duração (embora a maioria dos episódios dure mais tempo).
De toda forma, os sintomas envolvem alterações nítidas no humor, na cognição e em funções físicas do corpo.
Nesse texto, quando nos referimos a depressão, falaremos sobre ele ou os sintomas depressivos de forma geral.
Qual a causa da depressão?
É difícil atribuir a depressão uma causa específica. Na verdade, essa doença envolve vários fatores diferentes.
Fatores genéticos, ambientais e até comportamentais, como exposição crônica ao estresse, se relacionam à causa da doença.
Um desses fatores é a desregulação de determinados neurotransmissores, como serotonina, noradrenalina, dopamina, entre outros.
O nosso encéfalo (popularmente conhecido como cérebro) funciona a partir da comunicação desses neurotransmissores nos neurônios.
Quando ela não ocorre tão bem, pode gerar um desequilíbrio, influenciando diversas funções no nosso corpo, inclusive nosso humor.
Antigamente se atribuía apenas a baixa produção desses neurotransmissores como a causa da depressão, mas hoje já se sabe que não é apenas isso.
Esses neurotransmissores são os principais alvos do tratamento farmacológico para depressão. E não é que os medicamentos não funcionam, mas não funcionam para todos.
O que pode fazer uma pessoa ter que experimentar diversos tipos diferentes de medicações até encontrar uma que seja adequada para ela ou, até mesmo, não encontrar.
Qual é o tratamento para depressão?
O tratamento pode ser farmacológico (quando envolve o uso de medicamentos) ou não.
Cada tratamento varia conforme a necessidade e possibilidade do paciente. Sendo o ideal em alguns casos a combinação de tratamentos diferentes, como medicação e psicoterapia.
Tratamento não farmacológico/medicamentoso
A psicoterapia é um tipo de terapia feita por psicólogos. Ela é importante para que o paciente aprenda a lidar com as suas questões psíquicas e pode ser uma grande aliada no tratamento da depressão.
Um exemplo de psicoterapia é a terapia cognitivo-comportamental. Já existem diversos estudos comprovando a eficácia dela para tratamento da depressão.
Tal como esse estudo que comparou a terapia cognitivo-comportamental aos antidepressivos. A terapia mostrou uma eficácia similar à medicação depois de 16 semanas.
Verificou-se também que os pacientes que passaram por terapia apresentaram uma menor chance de recaída nos sintomas depressivos em comparação àqueles que tomaram apenas medicamentos.
A importância da terapia é enorme. Aprender uma nova forma de lidar com as próprias questões pode ser revolucionário na forma de viver.
Além disso, mudanças no estilo de vida, como praticar atividade física, alimentação saudável e a manutenção de uma boa qualidade de sono, também podem colaborar para aliviar os sintomas da depressão.
Tratamento farmacológico
No tratamento farmacológico, o foco é o aumento dos neurotransmissores. Isso acontece de forma diferente conforme o medicamento.
Por exemplo, os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) agem inibindo a recaptação de serotonina na fenda sináptica, espaço que ocorre a comunicação entre os neurônios. Dessa forma, o medicamento faz com que tenha mais serotonina na região.
Existem ainda outras classes diferentes de antidepressivos, como Inibidores da Monoaminoxidase, antidepressivos Tricíclicos, Inibidores da Recaptação de Noradrenalina/Dopamina e outros.
Cerca de 60% das pessoas respondem bem ao tratamento com antidepressivos. O problema é a quantidade de pessoas em que ele não é tão efetivo.
Outra problemática dos antidepressivos são os efeitos colaterais. Alterações na libido, mudanças no sono, apatia, enjoo, tontura, boca seca, taquicardia,visão turva e alterações no apetite são alguns desses efeitos.
Devido a esses problemas, o surgimento de novas opções para tratamento é essencial, o uso medicinal da Cannabis pode ser uma delas, como falaremos adiante.
O tratamento com a Cannabis para depressão
O nosso corpo possui diversos receptores que interagem com a Cannabis, isso é devido ao Sistema Endocanabinoide.
Os receptores mais conhecidos são o CB1 e CB2, localizados em maior proporção no sistema nervoso central e no sistema imune, respectivamente.
É por nosso corpo estar cheio de receptores canabinoides que o tratamento com Cannabis pode servir para tantas patologias/transtornos diferentes.
Esses receptores são onde os componentes da planta Canabidiol (CBD) e Tetrahidrocanabinol (THC) se conectam e realizam efeito terapêutico.
Chamamos o Sistema Endocanabinoide de um sistema neuromodulador, pois ele tem a capacidade de modular outros sistemas, como o sistema serotoninérgico.
Por modular outros sistemas, ele age de diversas formas reduzindo os sintomas depressivos.
Estudos científicos sobre a Cannabis como tratamento da depressão
Estudos pré-clínicos (em animais) mostram efetividade no tratamento da depressão com os componentes da Cannabis.
Não existem estudos clínicos (feitos com pacientes) que estudaram especificamente a ação da Cannabis em pacientes com depressão.
O que existe são estudos que analisaram outros aspectos, como a exaustão emocional devido ao trabalho, mas que também analisaram sintomas depressivos. Como é explicado adiante.
O estudo feito no Brasil, com profissionais que trabalhavam na linha de frente em hospitais durante a pandemia de COVID-19, analisou a efetividade do Canabidiol no tratamento da exaustão emocional e Burnout.
Participaram 120 profissionais de saúde divididos em dois grupos, um grupo recebeu 300mg/dia de Canabidiol + tratamento padrão e outro grupo recebeu apenas o tratamento padrão.
O tratamento padrão consistiu em vídeos motivacionais e instrucionais sobre exercícios físicos, além de consultas semanais com psiquiatras que ofereceram suporte psicológico (por exemplo, conversas e suporte espiritual).
Eles foram acompanhados durante as 4 semanas de tratamento.
Como resultado, a terapia com CBD reduziu os sintomas de burnout e exaustão emocional. Outro desfecho interessante foi a redução dos sintomas de depressão e ansiedade.
Os participantes (368 usuários de cannabis; 170 não usuários (grupo controle)) responderam questionários que avaliavam além dos sintomas depressivos e ansiosos, o sono, qualidade de vida e dor crônica.
O uso da Cannabis foi associado a uma menor incidência de depressão autorrelatada.
Além disso, os usuários relataram melhorias na qualidade do sono, na qualidade de vida em geral e uma redução significativa da dor.
Considerações finais
Apesar de dados e relatos positivos, as evidências científicas são escassas, já que não se têm estudos científicos para comprovar a eficácia no tratamento da depressão.
É necessário realizar mais estudos, analisando especificamente a ação na depressão e com um número significativo de pacientes.
Esperamos que no futuro já tenhamos esses estudos disponíveis.
A falta de estudos não é porque o tratamento com a Cannabis não funciona, mas pela dificuldade de realizá-los até então, sendo esse um efeito da proibição que durou muitos anos e interfere até os dias de hoje
Atualmente já é possível encontrar profissionais da saúde aptos a recomendarem o tratamento de forma legal com a Cannabis.
Porém em quesito de saúde mental, os psicodélicos podem revolucionar o tratamento da depressão e outros transtornos psiquiátricos. Você pode ler mais sobre Ayahuasca e Psilocibina.
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Farmacêutica, neurocientista e antiproibicionista.
Mentranda em neurociências pela UFSC. Pesquisadora da Cannabis. Amante das plantas e da ciência. Acredito que a conhecimento é uma das formas para expansão da consciência e por isso luto para propagar ele.
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