O uso da Cannabis no trabalho de parto traz consigo uma série de tabus e enigmas que surgiram e se perpetuaram até os dias de hoje por conta do proibicionismo.

Se considerarmos cerca de 12 mil anos da interação do ser humano com a planta em detrimento aos 100 anos de proibição, a verdade é que preciamos encarar muitos paradigmas.

Especialmente quando, a partir do avanço das pesquisas e estudos científicos, começamos a ter evidências sobre os seus benefícios em diversas situações.

É fato que o uso medicinal da Cannabis atrai interesse em diversas áreas da saúde. Seja para o tratamento de doenças ou em um contexto mais contemporâneo, nas pesquisas com gestantes — incluindo no trabalho de parto.

Embora tenha muitos debates éticos e médicos ao redor desse tema, estudos iniciais sugerem que os compostos da Cannabis (especialmente os canabinoides), podem oferecer benefícios potenciais no alívio da dor, no controle do estresse e na modulação de processos fisiológicos durante o parto.

Gostaria de trazer primeiramente que temos um período de proibição, são quase 100 anos, sendo cultivada a falácia e o preconceito com a planta. A cannabis tem seu uso descrito em enciclopédias botânicas há mais de dois mil anos com um uso diverso. Se pesquisava muito doenças do útero e parto, dores em geral. Hoje em dia, com a descoberta do sistema endocanabinoide sabemos o porquê. A pesquisa do Dr Raphael Mechoulam revelou que existe um sistema endocanabinoide nos corpos mamíferos e quando se olha onde estão os receptores, uma grande maioria se concentra no útero”, revela a Karin Bayerlein parteira tradicional, usuária, ativista e pesquisadora da planta há mais de sete anos. 

Este texto não tem a pretensão de estimular ou indicar o uso da Cannabis durante o trabalho de parto, nem tão pouco na gestação.

Mas propor uma reflexão sobre esse tema e apresentar pesquisas e relatos de gestantes que usaram Cannabis no parto e de parteiras e doulas que acompanharam partos de mulheres que usaram.

A relação entre o Sistema Endocanabinoide e o parto

O corpo humano possui o SEC (Sistema Endocanabinoide), responsável por regular funções como apetite, dor, humor e resposta ao estresse.

Durante o trabalho de parto, o SEC desempenha um papel importante na liberação de anandamida, um endocanabinoide produzido pelo corpo humano que se liga a receptores CB1 e CB2 presentes no sistema nervoso e nos tecidos uterinos, promovendo o alívio da dor. 

“Existe uma citação em um artigo do professor Philip Robson, de Oxford, ele resumiu a situação com a cannabis na obstetrícia assim: ‘Se você pudesse ter um agente que proporcionasse a redução da dor, acelerasse o trabalho de parto e impedisse a hemorragia após o parto, isso seria muito desejável. A Cannabis é vista como tão vergonhosa que ninguém começaria a pensar nisso e, no entanto, isso é realmente uma aplicação óbvia que devemos considerar seriamente com alguma pesquisa básica’”, detalha a parteria.

Uma pesquisa publicada no portal PubMed indica que níveis mais altos de anandamida estão associados a um parto mais eficiente, sugerindo que a modulação desse sistema pode ser benéfica para o processo. 

Curiosamente, o THC, um dos cannabinoides presentes na Cannabis, é uma molécula análoga à anandamida e, por isso, se conecta ao SEC ativando a regulação da dor, por exemplo. 

A anandamida é um neurotransmissor endógeno essencial para o bom funcionamento do Sistema Endocanabinoide e para a manutenção da homeostase no corpo humano… é uma molécula mensageira que participa de várias atividades corporais, como apetite, memória, dor, depressão e fertilidade… Sua capacidade de modular a neurotransmissão é fundamental para a manutenção do equilíbrio em diversas funções cognitivas e emocionais… Os receptores canabinoides podem ser ativados por endocanabinoides (como a anandamida), fitocanabinoides (como o THC e o CBD) e canabinoides sintéticos. O THC se liga aos receptores CB1 e CB2, mimetizando a ação da anandamida”, trecho extraído de um artigo publicado na WeCann.

Possíveis benefícios da Cannabis no trabalho de parto

Ainda que não exista um arsenal significativo de pesquisas que revelem os benefícios da Cannabis durante o trabalho de parto, há uma série de pesquisas que apresentam o potencial terapêutico da planta para manejar condições que permeiam a gestante durante o processo de parto.

A Cannabis ajuda a aumentar a concentração, a diminuir a dor e a relaxar a musculatura, graças às suas propriedades analgésicas, anti-inflamatórias e regeneradoras. Ainda acelera a recuperação muscular eliminando também dores e câimbras. Sem falar na sua ação ocitocinegica que ajuda a diminuir o tempo dos intervalos de contrações e assim, do trabalho de parto”, relata a parteria Karin.

Alívio da dor

Um dos maiores pesquisadores da planta, o cientista Ethan Russo, publicou no PubMed um dos seus artigos científicos que aponta que o THC e o CBD, dois dos principais compostos da cannabis, têm propriedades analgésicas. 

O THC atua diretamente nos receptores CB1 do sistema nervoso central, reduzindo a percepção da dor. Já o CBD pode potencializar os efeitos do THC enquanto atenua suas propriedades psicoativas, oferecendo alívio da dor sem os efeitos colaterais comuns dos opióides, frequentemente utilizados durante o parto.

Redução do estresse e da ansiedade

O trabalho de parto é geralmente acompanhado por altos níveis de estresse e ansiedade, que podem impactar negativamente o progresso do parto.

Um estudo preliminar comandado pela cientista Esther M. Blessing mostra que o CBD possui propriedades ansiolíticas e pode ajudar a diminuir a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, o que reduz a liberação de hormônios do estresse, como o cortisol.

O THC pode ajudar a reduzir a percepção da dor, proporcionando alívio durante o trabalho de parto. Isso pode ser particularmente útil para mulheres que preferem alternativas não farmacológicas ao uso de analgésicos tradicionais, como a epidural.

Relaxamento muscular e contratilidade uterina

Uma das principais indicações clínicas da Cannabis é para o relaxamento muscular e a regulação das contrações uterinas.

Estudos in vitro demonstraram que os cannabinoides têm a capacidade de modular a atividade muscular lisa, o que pode ser útil tanto para facilitar o trabalho de parto quanto para prevenir complicações, como contrações excessivamente intensas ou prematuras.

A maconha é uma planta feminina, temos registros muito antigos do emprego da planta para a saúde da mulher, para alívio de dor e como ação antiinflamatória. Num trabalho de parto, especificamente, além da conexão com a intuição, que durante o parto é imprescindível, a planta ajuda a gerar um relaxamento e ao mesmo tempo estimula a presença, por isso é um diferencial nesse nível de conexão, relaxamento e presença”, esclarece Schelly Santiago, doula, pesquisadora e usuária da planta

Uso da milenar da Cannabis: dos povos originários até os dias atuais

Antes da proibição, médicos prescreviam a Cannabis (e farmácias ou boticas a vendiam) para uma série de tratamentos, entre eles, para a saúde da mulher:

Outro conjunto de patologias onde a maconha parece ter sido bem explorada como possibilidade terapêutica foram as doenças que acometiam o sistema reprodutor feminino, como cólicas, corrimentos e inflamações do útero. Outra evidência que aponta para utilização da maconha nestes casos é a existência de um remédio pronto, diferente dos remédios officinaes e magistraes manipulados e produzidos nas farmácias. Este remédio pronto era a Fluxo-Sedatina vendido pronto e lacrado, era indicado no combate às cólicas uterinas, mesmo as da gravidez […]. É o melhor remédio para as doenças do útero, como FLORES BRANCAS, inflamações, suspensões, corrimentos, catarro do útero” (Brazil-Medico, 1924, p. 15)”, trecho extraída da dissertação escrita por Saulo Carneiro e publicado pela FioCruz.

Muitos desses conhecimentos e aplicações são oriundos do uso tradicional da planta pelos povos originários e também pelos africanos escravizados que trouxeram a planta ao Brasil no período da colonização, mas que já faziam uso em seus territórios de origem.

Porém, muito desse conhecimento foi transferido de forma oral entre as gerações, por isso, não há registros desses usos que remontam a tempos antigos.

Mas, é fato que esses saberes tradicionais seguiram atravessando séculos e sendo perpetuados até encontrar o proibicionismo, que minou a utilização da planta. E, portanto, as suas formas de aplicação, estudos e pesquisas.

Os povos originários passam seu conhecimento via oralidade, pouco se tem em registro. Para beber dessa fonte tem que saber ouvir. As ancestrais carregam um conhecimento herbal incrível e sim, a cannabis está inclusa na prática de alguns povos, lembrando que a proibição coagiu esses povos, que muitas vezes deixaram o uso para não serem sucumbidos”, destaca Karin.

Relatos de parteiras e doulas

Eu nunca uso a planta simplesmente na hora do parto. Primeiramente, a mulher já tem que conhecer a planta no seu universo diário, por isso meu acolhimento é sempre com mulheres já usuárias, que sabem como seu corpo se comporta ao receber os cannabinoides. Os benefícios dessa planta de poder estão relacionados à mente. Um trabalho de parto mental pode durar dias. Quando a mulher quer estar no controle, a Cannabis a trás ao mundo etéreo e o incontrolável toma conta mais rápido do trabalho e abrevia esse tempo. Para quem não é usuária, pode ser enlouquecedor, por isso sempre fumo um baseado com a gestante antes e observo sua conduta e principalmente, sua dose! Encontrar a dose da gestante é fundamental antes do trabalho de parto”, compartilha Karin.

Eu trabalho como parteira há 18 anos. O que vejo na minha experiência ao longo dessa trajetória é que fazer uso da planta durante a gestação não implica necessariamente na malformação do bebê ou em problemas futuros na criança decorrentes do uso da erva, pois conheço crianças desde que nasceram e que hoje estão com 18 anos. Existe uma visão muito distorcida sobre o que é qualidade de vida e saúde, onde as medicações alopáticas estão super valorizadas, inclusive com gestantes que usam medicações psiquiátricas controladas, mas que são impedidas de usar a maconha e que durante o período de amamentação tiveram questões que surgiram por conta do uso dessas medicações. Além de parteira eu também sou placenteira, ou seja, faço tinturas e cápsulas com a placenta. A placenta de uma mãe tabagista tem uma textura diferente, é mais esfarelenta, por isso, torna o parto domiciliar mais arriscado. Já a placenta de uma grávida usuária de maconha atende às características de uma placenta considerada ideal, com boa formação, por isso entendo que se trata de uma planta segura”, destaca Marcela Flueti, parteria tradicional e placentera.

Como doula, que atua há mais de 12 anos com gestantes, acompanhei muitas delas que são usuárias da erva, seja na gravidez, no parto e até no pós parto. Foi estudando e observando o nível de entrega e conexão dessas mulheres com os seus corpos físico, emocional e espiritual, que pude ver que é realmente notável a diferença dessas mulheres que permitiram o uso dessa planta como ferramenta nesse espaço de auto regulação, que é comprovado cientificamente pelo existência do sistema endocanabinoide”, pontua a doula, Schelly Santiago.

Formas de uso da Cannabis durante o parto

Dentre as possibilidades de uso da Cannabis no parto destaca-se a forma inalada, preferencialmente através do uso de vaporizadores que reduz os danos da fumaça, pois proporciona uma resposta mais rápida como efeito analgésico, possibilitando à gestante relaxar para seguir com as contrações. 

Além disso, as tinturas, pomadas, cremes ou géis infusionados com maconha, ajudam na massagem, seja na região da lombar, nas costas ou mesmo na barriga, já que a pele possui receptores que se conectam às propriedades da planta, ativando sistema endocannabinoide, promovendo alívio da dor.

As formas de uso são enquadradas na indicação, estilo e modo de vida da gestante, principalmente pelo acesso que ela tem à planta. Mulheres de classe média, geralmente brancas e mais privilegiadas têm acesso a erva fresca, óleos medicinais, cremes, sementes, tinturas. Todas as formas de aplicação que o dinheiro pode comprar. Pessoas de classes mais pobres têm acesso à erva prensada e pouquíssimo acesso a outras formas de uso.

Geralmente eu danço conforme a música, se o que se tem na mão é prensado, ensino a lavar e reduzir danos, porém não aplico esse óleo via oral e sim por via tópica. Tintura e óleo para uso oral, só faço com erva fresca, aí vamos nos adaptando com o que temos”, explica Karin.

Relatos de gestante que usaram a planta durante o parto

Por se tratar de uma planta proibida e que o próprio Conselho Federal de Medicina indica seu uso somente para as crises epilépticas relacionadas às síndromes de Dravet, Doose e Lennox-Gastaut, muitas gestantes omitem, durante o pré natal, que são usuárias da erva.

Em geral, temem sofrer consequências penais, como ter o bebê retirado de seus cuidados ou ser impedida de amamentar logo após o parto.

Os relatos a seguir foram publicados de forma anônima para preservar a imagem e a segurança das mães.

Eles foram compartilhados durante as sessões do Grupo Terapêutico do Coletivo Segurando as Pontas, um espaço online de escuta e troca entre mães antiproibicionistas e que são usuárias da erva, mediado por terapeutas, psicólogas, médicas e advogadas.

A médica neonatal fez uma série de perguntas e eu nem refleti nas consequências que minha resposta poderia trazer. Ela perguntou se eu fumei, o que fumei e quando. Contei que fumei a noite e entrei em trabalho de parto de madrugada. Depois que terminou ficamos um bom tempo discutindo quando ela disse que eu não podia amamentar. Eu e meu companheiro estávamos totalmente indignados, meu filho recém nascido do meu lado e eu em sofrimento com isso. A discussão foi tanta que ela chegou a meio que ameaçar chamar o conselho tutelar, falou que o bebê podia morrer, tudo isso eu ainda recém parida. Entrei em desespero chorando absurdamente, pois estava muito ansiosa e me preparando pra essa primeira amamentação a um bom tempo (até mais que o parto). Mas, infelizmente, nas primeiras 24h de vida, meu filho tomou fórmula no hospital com a técnica de enfermagem. Me arrancaram esse direito e eu me senti completamente acuada e ela me colocou um pânico absurdo de que aconteceria algo com meu filho, Eu e meu companheiro ficamos muito sentidos com isso e com medo de que ela denunciasse de alguma forma. Hoje meu neném ta aqui firme e forte com a mamãe maconheira”.

Mesmo diante do proibicionismo, muitas gestantes enfrentam essa realidade e levam o trabalho de parto tendo a Cannabis como ferramenta de apoio terapêutico.

Eu usei em três trabalhos de parto. No quarto optei por nem fumar porque já estava evoluindo muito rápido. No primeiro, eu estava com receio de fumar por não ter informação, foi há 13 anos atrás. Mas, em determinado momento, que não aguentava mais de dor, resolvi dar um peguinha numa ponta que vi e simplesmente tive a maior contração de todas e evolui rapidamente pro expulsivo. Quase não consegui chegar ao hospital. Nos segundo e terceiro parto fiquei em casa, fumei e pari sozinha. Não deu tempo da parteira chegar. No segundo e no terceiro eu escolhi nem contratar ninguém. Afirmo claramente que a maconha potencializa as contrações e pode também ser uma grande aliada da mulher para um mergulho no processo. O quarto bebê eu não fumei no trabalho de parto, mas fumei ao longo do dia, durante os pródromos, e o parto durou 2h30”.

Por aqui eu comecei a sentir dores à 1:30 da manhã. Deitei, descansei, dormi e as contrações ficaram mais intensas por volta das quatro da manhã. Quando amanheceu o dia, meu esposo fez um cigarro de haxixe e uma salada de frutas, pois eu precisava me alimentar. Dei uns tragos, mas não consegui comer e eu já sentia tantas dores, que só o chuveiro resolvia. Saí do chuveiro e dei mais um trago. Eu sentia as contrações que evoluíam muito rápido. Eu tive doula e seguramos um pouco a vinda dela pelo nosso momento de privacidade, que era fumar. Não contamos nada para ninguém, nem para a doula, nem para as enfermeiras, justamente por medo do preconceito”

“Eu fumei ao longo de toda a gestação e na noite antes das dores também fumamos”. 

Atualmente, estou grávida novamente. Na consulta de acolhimento na casa de parto, foi dito bem claramente que mães que usam maconha não podem parir na casa de parto, por se tornar um parto de risco. Então, seguiremos no sigilo”. 

Meu parto foi domiciliar e eu fiz uso da ganja durante o processo. Tive uma enfermeira obstetra e parteira, além da presença da minha mãe e do pai do meu filho. Foram cerca de 22 horas até o nascimento. Durante quase todo o trabalho de parto eu fiz uso de uma caneta com óleo de maconha e para mim fez toda a diferença. Mas, o que eu sinto é que o portal que atravessamos para viver a partolândia é tão intenso, que nada supera o que sentimos quando estamos parindo, independente da substância, sei de mulheres que usam ayahuasca, por exemplo, mas ainda sim, o ato de parir é a grande onda”.

Limitações e necessidade de mais pesquisas

Embora as evidências iniciais sejam promissoras, especialmente no alívio da dor e no manejo do estresse, é importante reconhecer que o uso de cannabis durante o trabalho de parto ainda carece de estudos clínicos robustos. 

Questões como a dose ideal, o método de administração e os possíveis efeitos colaterais para a mãe e o bebê precisam ser mais bem compreendidas. 

Porém, a experiência de mulheres que escolhem vivenciar seus trabalhos de partos tendo a Cannabis como ferramento de apoio terapêutico precisa ser ouvida e respeitada.

O que estamos assistindo é o negligenciamento de suas experiências e a condenação de suas escolhas.

Um olhar antiproibicionista da ciência para este cenário de gestantes que usam essa planta medicinal como amparo à sua saúde mental, num momento tão especial que é a gestação e o ato de parir, deve prevalecer, para que as mulheres sejam acolhidas e para que as pesquisas avancem, livres de tabus, de preconceitos e de conflitos de interesses.