Sumário
- O contexto dos atuais tratamentos para depressão e traumas
- O renascimento dos psicodélicos como ferramentas terapêuticas
- Estudos científicos com DMT no Brasil e no mundo
- Os efeitos da DMT e as formas de uso
- A importância do acompanhamento terapêutico durante uso da DMT
- Beber a Ayahuasca em rituais é terapêutico?
- O futuro da psiquiatria psicodélica
A DMT (Dimetiltriptamina) é um composto psicoativo conhecido por seus efeitos profundos e rápidos no sistema nervoso central.
Por essas características, nesta onda crescente do renascimento dos psicodélicos, essa substância vem se destacando como opção de tratamento para pessoas que enfrentam problemas psiquiátricos, como a depressão.
Pensando nisso, o objetivo desse artigo é refletir sobre o que é e quais os efeitos da DMT (dimetiltriptamina) e quais são as evidências científicas do potencial dessa substância nos tratamentos de depressão e traumas.
O contexto dos atuais tratamentos para depressão e traumas
Desde 2017, a venda de medicamentos antidepressivos (como clonazepam, rivotril e daí por diante) cresceu cerca de 60%, já que mais de 10% da população convive com a doença, segundo dados do IBGE. No entanto, ao longo do tempo, o cérebro pode se adaptar ao medicamento, reduzindo sua eficácia.
Além disso, o uso contínuo de medicamentos que modulam a serotonina, como os ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina), pode alterar o equilíbrio desse sistema, gerando efeitos desconhecidos a longo prazo.
Sem contar que, cerca de 30% dos pacientes com depressão não respondem a nenhum fármaco existente no mercado, o que mostra a necessidade de se procurar novas estratégias com efeito antidepressivo.
“Quando um paciente procura um tratamento para depressão existe a ordem de 50% de chance de resposta àquele tratamento com medicamentos convencionais. Se não houver resposta, há o ajuste de dose orientado pelo psiquiatra, se ainda assim não houver resposta, há a necessidade de mudar a medicação. Neste caso, a chance de resposta cai para 30%. Se o paciente tentou duas medicações e não avançou, na terceira mudança a chance de resposta cai para 10%”. explica o físico e pesquisador em neurociência, Dráulio Araújo.
O renascimento dos psicodélicos como ferramentas terapêuticas
Por décadas, substâncias psicodélicas como LSD, psilocibina, MDMA e DMT foram vistas com desconfiança devido à sua associação com movimentos contraculturais e seu status como drogas proibidas.
No entanto, um renascimento científico e cultural nas últimas duas décadas estpá reposicionando essas substâncias como ferramentas promissoras na psiquiatria, especialmente no tratamento de condições mentais complexas e resistentes a terapias convencionais.
Nos anos 1950 e 1960, os psicodélicos despertaram interesse científico como potenciais terapias para depressão, alcoolismo e outros transtornos.
Contudo, questões políticas e sociais levaram à interrupção abrupta desses estudos. Recentemente, com avanços na neurociência e mudanças no entendimento sobre saúde mental, a pesquisa psicodélica retornou, agora respaldada por metodologias rigorosas e tecnologia moderna.
“De onde vem a proibição das substâncias psicodélicas nos EUA? Da transformação que elas promovem. Enquanto por um lado, tem gente vendendo armas e fazendo guerra, como na Coreia e no Vietnã e ganhando muito dinheiro com isso, por outro lado você tem milhares de pessoas pedindo paz e amor no movimento contracultura, daí surge a proibição”, explica Dr. Dráulio Araújo.
Estudos científicos com DMT no Brasil e no mundo
Instituições de prestígio mundial, como a Universidade do Novo México, nos EUA, ao lado de universidades referências do nordeste brasileiro, como a UFRN (Universidade Federal do Rio Grande Norte) através do Instituto do Cérebro e a UFC (Universidade Federal do Ceará) estão liderando ensaios clínicos que investigam o impacto dessas substâncias, entre elas a DMT, em condições como depressão, ansiedade, TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) e dependência química.
A DMT é uma substância que faz parte do grupo das triptaminas e pode ser classificada como psicodélica, enteógena e alucinógena. Ela interage com receptores específicos no cérebro, produzindo um estado de relaxamento mental capaz de minimizar os sintomas de psicose.
“A ação do DMT no Sistema Nervoso Central ocorre devido a sua semelhança estrutural com o neurotransmissor serotonina, interagindo de forma agonista com os receptores 5-HT2 do cérebro (Gil et al., 2014). No entanto, a ação do DMT depende da inibição da monoamina oxidase (MAO), enzima que degrada o alcalóide DMT no fígado e no intestino (Pires et al., 2010). Segundo a American Chemical Society (ACS), 2020, a molécula apresenta resultados favoráveis no tratamento de diversos transtornos psiquiátricos, assim como depressão, e ansiedade”, trecho extraído da revisão sistemática com o título: O uso terapêutico da DMT no tratamento de doenças psiquiátricas.
Na UFC, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia avaliaram o efeito da DMT em modelos animais e obtiveram bons resultados na luta contra a depressão persistente.
O trabalho foi feito pelo pesquisador Cid Coelho Pinto, com orientação do Prof. David de Lucena e coorientação da Profª Danielle Macêdo.
Além de confirmar o efeito antidepressivo da DMT, apontado em estudos anteriores, a pesquisa feita na UFC trouxe uma novidade: a utilização de dose única com resultados.
Se comparado aos medicamentos convencionais da indústria, essa é uma grande vantagem, pois os antidepressivos começam a apresentar resultado depois de quatro a cinco semanas.
Essa observação sobre a rapidez da resposta ao tratamento com DMT em casos de depressão foi relatada pelo Dr Dráulio em uma pesquisa conduzida pela UFRN.
Pacientes que não obtinham respostas efetivas com o tratamento para depressão pelas vias convencionais de medicamentos foram acompanhadas após o uso da DMT, seja na forma isolada ou pela Ayahuasca, um complexo chá vegetal de origem indígena que contém DMT.
“Primeiro trabalhamos com Ayahuasca e depois com DMT nos pacientes. Os pacientes passavam por uma intervenção com a substância no hospital e a equipe seguia acompanhando os sintomas de depressão deles por alguns dias. O que nós observamos primeiramente é que existe uma resposta e de forma rápida. Os relatos mostram que um dia após a intervenção com a substância eles se sentiam melhores”, relata Dr Dráulio, responsável pela pesquisa na universidade.
A pesquisa observou também que não houve eventos adversos psicológicos, o que se considera um bom sinal em termos de segurança da substância.
Ou seja, isso aponta que a substância pode ser administrada sem haver complicações graves. Mesmo assim, é necessário contar com cautela ao fazer uso da substância como forma de tratamento.
Os efeitos da DMT e as formas de uso
Na natureza, a DMT está presente em vários vegetais e alguns animais, como o sapo Bufo alvarius. Seus efeitos psicoativos ganharam notoriedade a partir de infusões de plantas como a jurema e a chacrona, esta última utilizada em rituais sagrados milenares na região amazônica e por grupos religiosos urbanos na elaboração da Ayahuasca.
Também é possível extrair a DMT da jurema-preta, Mimosa tenuiflora. Um arbusto nativo e abundante no nordeste brasileiro, que assim como a Ayahuasca, também possui um histórico de uso ritualístico indígena e em cultos afro-brasileiros.
No campo terapêutico e de pesquisa, quando se faz uso da substância isolada, geralmente extraída da Jurema, a via de administração é por inalação. Os efeitos são rápidos e atingem o pico cerca de 2 minutos após o uso, chegando ao final cerca de 20 minutos depois e com baixa reação adversa.
“O uso inalado da DMT tem um efeito bastante agudo, intenso e de difícil controle dos efeitos no corpo, mesmo que em pouco tempo, o que acaba limitando um pouco sua aplicação, mas no meu entendimento ele é excelente para abrir as portas do tratamento, pois além de trabalhar com a suspensão de sintomas depressivos, como tem revelado as pesquisas na UFRN, favorece o paciente perceber que ele pode conviver sem esses sintomas”, explica Raquel Vieira, psicóloga e pesquisadora de psicodélicos há mais de 20 anos.
Quando se faz o uso do chá de Ayahuasca, os efeitos começam a surgir cerca de 30 a 40 minutos depois e podem durar de 4 a 12 horas, a depender da dose.
Os efeitos adversos da substância no corpo, podem ocasionar vômitos e diarreias, mas que dentro da ritualística índigena, são estágios de limpeza do corpo.
Seja na forma isolada ou de chá, as experiências psicológicas e emocionais que a DMT provoca no corpo são seu grande diferencial, a ponto de pacientes relatarem que conseguiram avançar nessas áreas de forma mais rápida.
A importância do acompanhamento terapêutico durante uso da DMT
Apesar das pesquisas mostrarem que a substância não tem risco de complicações graves, é necessário cautela ao fazer uso da substância como forma de tratamento.
A presença de um acompanhamento psicológico é fundamental para maximizar os benefícios terapêuticos e minimizar possíveis efeitos adversos.
Porém, o Brasil ainda não regulamentou o uso das substâncias psicodélicas. Por isso, profissionais da saúde, sejam médicos(as) psiquiátricos(as) ou psicólogos(as) não estão autorizados a aplicar esse tipo de terapia em seus pacientes.
Mas, como um cenário futuro promissor já está se formando, é fundamental que esses profissionais já comecem a se preparar para atuar na clínica, pois trata-se apenas de uma questão de tempo.
“Devido esse impedimento regulatório e legal a respeito das substâncias psicodélicas, quem está fazendo suas formações agora está se adiantando. O psicólogo que está interessado nisso pode fazer alguma especialização, inclusive há opções reconhecidas pelo MEC, porém não se ganha o título de especialista. Ao meu ver, é interessante que o profissional seja um praticante, pois este é um caminho de entender o que ele vai oferecer ao paciente, enquanto terapia assistida e o impacto desse tratamento”, pontua a psicóloga, Raquel Vieira.
Hoje em dia, o que o psicólogo tem autorização para fazer é uma preparação e integração para experiência individuais fora do contexto clínico. Isto é, em situações de uso das substâncias de forma autônoma, além da prática de redução de danos para aumentar a segurança da experiência do paciente.
Beber a Ayahuasca em rituais é terapêutico?
Ayahuasca é um nome de origem quechua que se refere a uma bebida ou chá que os povos indígenas amazônicos usam há milênios.
Foi no início do século passado, que grupos religiosos brasileiros, como o Santo Daime e a União do Vegetal, passaram a fazer uso desse chá em sessões ritualísticas.
Prepara-se o chá a partir da combinação de duas plantas: um cipó conhecido como Jagube ou Mariri (Banisteriopsis caapi) e folhas de um arbusto chamado Chacrona (Psychotria viridis).
A DMT está presente nas folhas da chacrona. No entanto, se ingerir somente a planta, a substância não causa efeito. Afinal de contas, o corpo humano produz uma enzima capaz de degradar essa molécula.
Por isso, o chá combina o cipó mariri, que atua impedindo a ação da enzima, dando espaço para a substância agir e causar o efeito psicodélico.
Suas principais substâncias são as beta-carbolinas harmina, THH (tetrahidroharmina), harmalina e a DMT (N,N-Dimetiltriptamina).
Além disso, o feitio do chá produz um complexo de substâncias que vai além do DMT, é o que explica a jornalista especializada em psicodélicos e daimista praticante, Caroline Apple.
“O chá de Ayahuasca é uma sinergia de diversas substâncias, entre elas o DMT, mas é esse complexo de alcalóides, como harmina, harmalina, que promove a experiência de beber o chá, que ativam lugares no nosso cérebro e no nosso organismo. Fazendo uma analogia, é como se a Ayahuasca fosse o óleo full spectrum da Cannabis agindo pelo modo do efeito comitiva. O DMT isolado promove um tipo de resultado, quando você bebe o chá você abre um leque de possibilidade muito maior de ações no organismo”, pontua Caroline.
A distinção entre o ritual espiritual da Ayahuasca das práticas terapêuticas
Ela destaca também sobre a importância de não confundir um centro espiritual com um espaço terapêutico, pois uma prática espiritual não corresponde com o exercício da terapia.
“Esse tipo de confusão pode ser bastante perigosa. Pois ter potencial terapêutico não significa ser terapêutico. Terapia é um processo que segue um acompanhamento a partir de uma metodologia, que envolve, por exemplo, ajuste de dosagem. Uma casa espiritual não oferece esse suporte, esse apoio terapêutico. Aliás, esse tipo de suporte nem deve acontecer. Mesmo que algum dirigente do espaço tenha uma formação, como psicólogo ou terapeuta, ele não pode dar esse apoio a quem frequenta o local. Isso pode gerar relações de poder extremamente distorcidas e abre um leque de possibilidades para abuso e manipulações”, ressalta a jornalista.
Isso não quer dizer que pessoas com depressão não podem começar a sentir melhora após frequentar rituais religiosos de Ayahuasca.
Afinal, os efeitos terapêuticos das substâncias presentes no chá atuam no corpo. No entanto, fazer uso tendo a frente um profissional que entenda tanto do diagnóstico quanto dos efeitos da substância, conduz para resultados mais efetivos.
“Usar a DMT inalada e beber Ayahuasca são processos diferentes e um não substitui o outro. Além disso, eles não são apenas para tratar problemas, essa é a questão. E muito da abordagem que está sendo feita em torno dessas substâncias é como tratamento. Mas tem casos que a pessoa não está doente, mas existem outras motivações que fazem com que ela recorra a ter experiências com as substâncias, como por exemplo, contato com a espiritualidade. E tá tudo bem”, defende Raquel.
A molécula do espírito ou a bebida dos mortos
O efeito psicodélico e, portanto, de alteração de consciência, que tanto o DMT isolado como a Ayahuasca provocam no corpo, são descritas por muitas pessoas como uma experiência de quase morte.
Tanto para povos originários quanto para as pessoas que frequentam os centros espirituais, como a igreja do Santo Daime ou da União do Vegetal, é justamente essa sensação que nos coloca em contato com nosso espírito e conexão com o divino.
Enquanto sob o aspecto religioso não é preciso ver para crer, a ciência, por outro lado, busca formas de entender a vida e suas manifestações.
Como, por exemplo, descrever algumas experiências que têm origem na religião ou de transcendência espiritual, fotografando o cérebro de pessoas que vivem essas experiências.
“Mesmo como cientista eu tenho profundo respeito pelas comunidades originárias que criaram essa tecnologia ancestral que é a Ayahuasca, justamente pelo caminho de transcendência que se abre, que nada mais é que a prática de se colocar no presente, que é o que prega todas as religiões”, compartilha Dráulio Araújo.
Uma pesquisa conduzida nos anos 90 que originou o livro DMT: A Molécula do Espírito, de autoria de Rick Strassman, Professor Associado de Psiquiatria Clínica na Escola de Medicina da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos, mostrou que o relato após o uso da Ayahuasca convergiam numa descrição parecida da experiência.
“Experiência de iluminação, incluindo a atemporalidade, a inefabilidade, a coexistência de opostos, o contato e a união com uma presença sumamente poderosa, sábia e amorosa, vivenciada às vezes como uma luz branca; a certeza de que a consciência continua após a morte do corpo e um conhecimento em primeira mão dos ‘fatos’ básico da criação e da consciência”, conforme consta no livro.
A ideia do pesquisador era averiguar se uma produção excessiva de DMT pela glândula pineal estaria envolvida nos estados ampliados da consciência que ocorrem em alguns momentos, tais como: nascimento, morte e quase-morte, experiências místicas etc.
Diante dessa pergunta-hipótese é que o Dr. Strassman desenvolve seu estudo procurando semelhanças e proximidades entre estes estágios de alta produção endógena de DMT e a sua ingestão. Mas, de fato, a hipótese não se comprovou.
O futuro da psiquiatria psicodélica
Apesar do entusiasmo, a integração dos psicodélicos na psiquiatria enfrenta desafios legais, éticos e culturais.
A regulamentação ainda é restritiva em muitos países e o estigma referente ao uso dessas substâncias persiste.
Por outro lado, o crescente corpo de evidências científicas está ajudando a pavimentar o caminho para que terapias psicodélicas sejam amplamente aceitas e disponibilizadas.
Há uma transformação na forma como a saúde mental é abordada. Ao unir ciência, psicologia e a rica tradição do uso de substâncias psicodélicas por culturas ancestrais, a psiquiatria tem a oportunidade de oferecer tratamentos mais eficazes, com mais empatia e personalização.
Se esse renascimento continuar a prosperar, os psicodélicos podem não apenas curar pessoas, mas também mudar a maneira como entendemos a mente humana, seus desafios e seu potencial de cura.

Formada em jornalismo há quase 20 anos, Thais já passou pelas editorias de meio ambiente, turismo, cultura e gastronomia trabalhando por 17 anos na Chapada Diamantina onde deu aulas de comunicação e publicou três livros pelo Senac. Nos últimos cinco anos vem se dedicando exclusivamente a assuntos relacionados à política de drogas, à terapia cannabica, e psicodélicos, produzindo conteúdo para diferentes portais de notícias do gênero.
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