Conheça a origem da psilocibina e os diferentes usos recreativos e medicinais da substância.

O uso de cogumelos psicoativos (a psilocibina) acompanha o homem desde seus primórdios. É uma prática mais antiga que a escrita; na verdade, é mais antiga que o início da própria civilização.

Infelizmente muito do que foi estudado pelas civilizações antigas sobre os cogumelos mágicos foi apagado pelos intensos processos religiosos e de colonização no mundo.

Neste artigo vamos trazer um pouco sobre o que há de pesquisas na área, o que é a psilocibina, como ela age no seu cérebro, quais os efeitos ela causa, como a psilocibina pode ser usada como uma medicina e tambèm como podemos nos prevenir de ter uma viagem errada de cogumelos.

Apesar de não ser um tema muito estudado, também tentaremos falar de maneira breve sobre a relação da maconha com os cogumelos alucinógenos.

Confira!

Os cogumelos mágicos na história da humanidade

O registro histórico mais antigo que se tem conhecimento do uso de cogumelos alucinógenos é uma pintura nas paredes de uma caverna na Austrália, tem idade estimada em 12.000 anos.

Um achado desses não é uma raridade, existem registros de uso de cogumelos psicoativos nas populações pré-históricas em todos os continentes habitados. É um costume tão antigo e enraizado na história do homo sapiens, que é quase impossível apontar suas origens. Alguns pesquisadores chegam até a traçar um paralelo entre a evolução do cérebro humano, com o uso de substâncias psicoativas, principalmente a psilocibina.

psilocibina cogumelo
Foto: Ancient Origins

Essa conexão com o estado de espírito elevado era tão profunda, que os registros dessa prática acompanham de mãos dadas a evolução de como o homem escrevia sua própria história. A partir do momento que as pinturas rupestres começaram a aparecer, lá estavam os desenhos que remetiam a cogumelos e seus rituais, como as pinturas encontradas na Espanha, com mais de 6000 anos.

Os maias, incas e astecas possuíam Deuses e lendas baseadas em cogumelos e plantas que acreditavam ter poderes mágicos, assim, esculturas, monumentos e templos eram erguidos em admiração e respeito à sabedoria enteógena.

Os Astecas chamavam seus cogumelos de “teonanácatl”, que significa, a carne dos deuses. Os raros registros astecas que sobreviveram à brutal colonização espanhola, em conjunto com registros feitos por missionários europeus, nos mostram a importância que tinham na sociedade asteca o “teonanácatl” e outras plantas psicoativas.

Eram considerados presente dos Deuses, o presente fundamental da própria vida, pelo qual se obtinham contato e a sabedoria dos seres superiores. Com frequência eles se reuniam para comer a carne dos deuses, riam, cantavam, choravam, e dançavam, depois partilhavam suas experiências e visões.

Na Grécia antiga, a adoração da Deusa Deméter incluía o consumo de uma bebida que se acredita fortemente que possuía além de outras substâncias, a psilocibina.

No Egito, os cogumelos eram representados em diversas formas de arte, esculturas, estátuas, e um vasto número de palavras e termos, que se referiam aos cogumelos como “filhos dos deuses” ou “comida dos deuses”, entre outros. Por não brotar de uma semente, os egípcios acreditavam que os cogumelos mágicos eram colocados na terra pelo próprio Osíris, por isso, seu consumo era permitido apenas a classes superiores.

psilocibina historia
Foto: Ancient Origins

Infelizmente, muitas dessas sociedades e suas culturas foram apagadas da face da terra por guerras e processos de colonização, e embora tenhamos muitos registros de pinturas rupestres à livros escritos antes de cristo, acredita-se que a grande maioria da história da relação psilocibina/ser humano tenha sido varrida pela ascensão da igreja católica e sua política de demonização à esse tipo de cultura.

Na nossa sociedade moderna, a psilocibina começou a ser oficialmente estudada na década de 50, quando micologistas de Harvard começaram a estudar no México os efeitos da psilocibina e outras características da substância.

Acompanhavam sessões ritualísticas de pequenas tribos que resistem até os dias de hoje e junto com o trabalho de laboratório que conseguiu isolar a molécula naquela mesma década, deram o primeiro passo nas pesquisas científicas em torno da psilocibina.

Devido ao tabu que ainda contamina nossa sociedade, a psilocibina não é legal na maioria dos países do mundo e pouquíssima pesquisa foi feita desde então, sempre enfrentando embargos políticos e religiosos das alas mais conservadoras. Nos últimos anos, porém, temos visto um avanço.

Em 2019 um centro de pesquisas com foco em substâncias psicodélicas foi inaugurado na John Hopkins University, nos EUA. Há também pesquisas que estão sendo realizadas para a introdução da psilocibina no tratamento de casos graves de depressão crônica, de vício em opioides, álcool e outras drogas, doença de lyme, transtorno pós traumático, e outras mazelas.

Como a psilocibina age no cérebro

O que faz a “magia” de um cogumelo mágico é a psilocibina, molécula que oxida ao entrar em contato com o oxigênio, revelando a famosa coloração azulada, responsável pelo apelido “cogumelo azul”. A psilocibina está no interior do cogumelo e ao ser ingerida é metabolizada em psilocina, que é a molécula ativada. Essa por sua vez, chega ao cérebro através da corrente sanguínea e age principalmente no sistema nervoso central. 

psilocibina depressão
Foto: John Hopkins University

A psilocina aumenta a atividade da serotonina e, além disso, por terem uma estrutura semelhante entre si, a psilocina também é captada pelos receptores de serotonina, amplificando ainda mais a atividade desses receptores. Grande parte da hipersensibilidade, de sentir, ouvir e ver o que normalmente não vemos é devido a esse fenômeno.

O mais incrível é que pesquisas utilizando ressonância magnética começam a nos mostrar os incríveis e místicos poderes dessa molécula. Já foi descoberto que a psilocibina é capaz de criar um estado de hiper conectividade entre as células nervosas, alterar os caminhos neurais, e até aumentar nossa neurogênese, que é nossa capacidade de criar novos neurônios.

Percebe-se também um grande aumento na atividade do hipocampo e outras regiões associadas com o sonho, as áreas relacionadas as emoções também são acionadas e aumentam sua atividade, induzindo uma sensação de consciência expandida.

A alteração temporária dos caminhos neurais nos ajuda a “pensar fora da caixa” e por isso podemos achar respostas em nós mesmos que sem a ajuda da psilocibina nunca encontraríamos.

Os efeitos da psilocibina

Tecnicamente a psilocibina e até mesmo o LSD não provocam alucinações, você não vai enxergar coisas que não estão ali. O que acontece são distorções das imagens, cores, formas e sentidos. Você provavelmente não vai ver elefantes rosa voando por aí, como nos filmes, mas se você tiver realmente olhando para um elefante, talvez você o veja rosa.

psilocibina efeitos
Foto: Medical News Today

Sentimentos e emoções podem ficar mais intensas e o tempo pode ser sentido passando mais rápido ou devagar. Como todas as drogas, os efeitos da psilocibina podem ser diferentes para cada pessoa e muito vai depender da dose ingerida e da mentalidade de cada um que consome.

Sobre os efeitos negativos, todos os estudos nos mais renomados centros de pesquisas chegam no mesmo resultado: cogumelos mágicos são a droga recreativa mais segura que existe, sendo menos tóxica que café e álcool.

Os estudos também indicam que os cogumelos mágicos possuem pouca ou nenhuma dependência, nem física nem química. Não se conhece dose letal para psilocibina e ela tem pouquíssima ou nenhuma toxicidade nos órgãos. Um dos maiores perigos ao ingerir cogumelos mágicos está relacionado com a ingestão de outros cogumelos erroneamente coletados.

Então já fica a dica, nunca, sob hipótese alguma, colete e coma cogumelos na natureza ou em pastos. Ao fazer isso, você corre sérios riscos de intoxicação e até morte. Isso é muito sério!

Os cogumelos mágicos não têm efeitos apenas recreativos e podem ser usados para fins medicinais. A psilocibina medicinal é uma forma de tratar depressão. 

A ciência ainda não compreende todos os alucinógenos e como a psilocibina funciona como um remédio, mas pesquisas já comprovam que os psicodélicos atuam como facilitadores da psicoterápica, já que ajudam os pacientes a relembrar e trabalhar traumas com menos sofrimento.

Embora seja um consenso científico que essa seja uma das drogas recreativas mais seguras e menos relacionada a problemas de saúde, a psilocibina não está livre de efeitos adversos.

O mais sério deles é o possível agravamento e/ou desencadeamento de transtornos mentais, como a esquizofrenia, depressão, síndrome do pânico e outras.

Atenção: não encontramos nenhum estudo que comprove ou que sugira que a psilocibina tenha alguma relação com o surgimento de novas doenças mentais, o que se sabe é que ela talvez possa agravar distúrbios e síndromes pré existentes. Outros fatores genéticos e o ambiente inserido são determinados para o desenvolvimento de doenças mentais. 

Então, se possível, para um esclarecimento preciso, consulte um profissional da área médica que de preferência tenha conhecimento real e interesse sobre enteógenos.

Viagem difícil com cogumelo

O outro efeito negativo que a psilocibina pode causar, como qualquer outra droga psicodélica, é a “bad trip, ou melhor dizendo, uma viagem difícil.  A viagem desafiadora do cogumelo é, como qualquer outra droga, uma mistura de sentimentos negativos, ansiedade e uma vontade enorme de que o efeito da substância desapareça o mais rápido possível.

A dica que vamos te dar aqui é uma ideia para pôr na cabeça: uma viagem difícil é como o “bicho papão”, o maior mal que ela pode te causar, é o próprio medo que você sente dela.

Racionalize, você ingeriu aquela substância por vontade própria, buscando uma experiência mística, então tente tirar o aprendizado do momento. Talvez esse mal estar esteja acontecendo por alguma angústia interior, talvez não.

Cabe a você tentar se manter calmo, tentar relaxar e saber que os efeitos que você está sentindo são fruto de uma substância que está no seu corpo em uma quantidade finita de moléculas. Você “viaja”, “fica doidão”, porque a psilocina está agindo no seu corpo. Uma hora ela acaba e você volta ao normal, com uma experiência de vida a mais na bagagem.

É sempre complicado falar sobre “bad trip”, é um assunto delicado e pode envolver inúmeras abordagens. Ao falarmos sobre isso aqui, assumimos a postura de quem já passou por isso e tem experiência com substâncias alucinógenas a mais de uma década e nada mais que isso.

Nunca tomaríamos irresponsavelmente a postura de um profissional da saúde, então, se quiser conversar com quem tem diploma para falar disso, procure um profissional especialista.

Dito isso, existem algumas dicas gerais que nós acreditamos que ajudam a evitar uma viagem errada de cogumelo:

  • Sempre tenha um vigia, alguém que não vai ingerir os cogumelos e vai se certificar que ninguém coloque a si mesmo e outros em situações perigosas. A presença de uma pessoa sóbria traz calma e segurança para quem está tomando.
  • Prefira errar a dose para menos do que para mais. Melhor ficar menos chapado do que chapado além da conta. Na próxima quem sabe você aumenta um pouco a dose, se exagerar, talvez você nunca mais queira uma próxima!
  • Escolha a dedo suas companhias. Essa dica não precisa de muita explicação, você não vai querer entrar em uma das experiências mais diferentes e únicas da sua vida ao lado de alguém que você não se sinta 110% à vontade.
  • Escolha o local com cuidado. De preferência um ambiente controlado, evite tomar ao ar livre. Ao contrário do que alguns pensam, um ambiente controlado como uma sala ou quarto não vai te dar a sensação de claustrofobia mas sim a sensação de segurança. Tomar ao ar livre pode atrapalhar e muito a vida do vigia. Certifique-se também que ninguém de fora irá chegar para atrapalhar a sua viagem! Não tem nada pior que ter que conversar com alguém que não entende da situação quando você está tendo uma onda de cogumelo.

A relação dos cogumelos mágicos com a maconha

Pesquisas científicas relacionadas à Cannabis, embora cresçam a cada ano, ainda continuam bem limitadas quando comparadas com outras áreas. E sobre a psilocibina? Bem menos. Pesquisas envolvendo os efeitos da psilocibina no corpo começaram a ser liberadas a pouquíssimo tempo, a ciência dos cogumelos mágicos ainda é um bebê. Quando falamos de pesquisas que relacionam maconha com a psilocibina então…é um universo inteiro a ser desbravado. 

cogumelos e maconha
Foto: Zenpype

O conhecimento sobre o uso dessas duas substâncias em conjunto é apenas informal, e apesar de ser uma prática relativamente comum, o poliuso de cogumelo com maconha pode ser perigoso ou ter efeitos negativos.

O que sentimos na prática, é o mesmo que sentimos quando usamos maconha com outras substâncias alucinógenas, como o LSD. Ocorre um aumento palpável nos efeitos alucinógenos, mas o mesmo pode se aplicar para efeitos adversos, uma viagem errada ou crise de ansiedade vai ser muito maior caso você esteja sob o efeito de mais de uma substância.

Use do seu julgamento e da sua consciência ao ingerir qualquer substância, sempre se baseie no conhecimento científico e no conhecimento do seu próprio corpo, pesquise, leia, e exercite a capacidade de duvidar. Nunca faça nada que você não se sinta totalmente confortável.

Conclusão

Os poucos registros sobre a história dos cogumelos mágicos que sobreviveram até os dias de hoje são o suficiente para que ninguém conteste o quão enraizada e importante são os cogumelos na evolução do homem e da sociedade.

Já foram Deuses, dádivas, já foram o pilar central de grandes civilizações, verdadeiros portais pro mundo astral e os cogumelos hoje hibernam à espera de serem descobertos novamente. 

Os cogumelos alucinógenos não são legais no Brasil, mas assim como acreditamos em uma política de drogas mais justa em relação à cannabis, esperamos que em breve o uso de cogumelos mágicos não seja mais um tabu e seu estudo seja difundido para que a sociedade possa aproveitar os efeitos recreativos e medicinais da psilocibina.

A misteriosa psilocibina, que sem revelar seus segredos ajudou o homem a desvendar seus próprios enigmas e abrir portas da mente, hoje, com o avanço da ciência, talvez se apresente mais uma vez, timidamente, como uma nova e velha resposta, uma chave antiga, capaz de abrir portas que nem sabíamos que estão fechadas.

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