Em tempos de mudanças climáticas, o Cânhamo demonstra ser uma das respostas mais promissoras para sustentabilidade de diversos produtos.
O cânhamo, uma variedade da Cannabis sativa, tem ganhado destaque como uma planta de enorme potencial sustentável, oferecendo alternativas em diversos setores da economia, desde a produção de fibras até a criação de biocombustíveis.
Estima-se que mais de 20 mil produtos podem derivar do cânhamo, porém com perfil sustentável e portanto, favorável ao meio ambiente.
Com as mudanças climáticas atingindo níveis críticos, a agricultura e a indústria buscam soluções que possam mitigar os impactos ambientais.
Nesse cenário, o cânhamo surge como uma das respostas mais promissoras para sustentabilidade.
Sustentabilidade do cânhamo em seu cultivo de baixo impacto ambiental
As vantagens da produção de Cânhamo começam pelo cultivo e seu baixo impacto ambiental. A planta se adapta a diferentes tipos de solo, requer pouca água e pode ser cultivada sem o uso intensivo de pesticidas.
“Em relação ao cultivo, o Cânhamo é extremamente sustentável, além de ser resistente tem um crescimento muito rápido, em cerca de 120 dias ele já está pronto para ser colhido, o que dispensa o uso de agrotóxico. O consumo de água também é baixo, comparado ao algodão e à soja, por exemplo”, explica Isabela Tamiozzo, advogada, ambientalista, pesquisadora da Cannabis e do cânhamo e criadora de conteúdo.
Ainda que o Cânhamo tenha todas essas vantagens ecológicas e sustentáveis em seu cultivo é importante sinalizar sobre a necessidade de uma regulamentação do plantio dessa espécie.
“Existem as pessoas e associações que plantam maconha para fins medicinais. Cultivos pioneiros e de enfrentamento criminal. Essenciais à vida. Essas plantas não podem ser polinizadas, pois perdem sua capacidade terapêutica. Por isso, não pode haver cruzamento de cultivo de Cânhamo e de maconha. É preciso pensar quais serão as áreas apropriadas para o cultivo de cânhamo para que não comprometa os cultivos medicinais”, pontua Ângela Aboin diretora da Associação Mãesconha e cultivadora para fins medicinais.
O Cânhamo como sumidouro de carbono
Segundo o Journal of Industrial Hemp, o ciclo de crescimento rápido faz com que o Cânhamo seja uma cultura renovável e capaz de sequestrar grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.
“A cada uma tonelada de Cânhamo colhida ele absorve 63 toneladas de CO2 do ar, um comportamento extremamente benéfico em tempos de mudança climáticas, já que os gases do efeito estufa são um grande impulsionador dessas consequências e com o Cânhamo conseguimos desacelerar esse processo”, destaca Isabela.
Pensando em termos de área, um estudo conduzido pela European Industrial Hemp Association (EIHA) aponta que o Cânhamo é capaz de capturar cerca de 10 toneladas de CO2 por hectare durante seu ciclo de cultivo.
Essa capacidade de sequestro de carbono é crucial em tempos de aquecimento global, onde a redução de emissões e a captura de gases de efeito estufa tornaram-se prioridades.
Cânhamo como regenerador do solo
A capacidade de regeneração do solo torna o Cânhamo uma cultura de rotação para reabastecer os nutrientes perdidos em monoculturas intensivas.
Essa característica é uma vantagem importante para agricultores que buscam métodos mais sustentáveis e ecológicos.
“Outro aspecto que se destaca é o fato dele ser fitorremediador, ou seja, absorve metais pesados, substâncias nocivas e impurezas do solo, como uma forma de preparar aquela área em que está plantado para o cultivo de outras espécies”, explica a pesquisadora.
A revolução industrial verde: fibra, tecido, plástico, biocombustível e até concreto
O uso do Cânhamo como fonte de fibra não é novidade, mas o avanço nas tecnologias de processamento tem ampliado suas aplicações.
A fibra de Cânhamo pode substituir materiais de origem fóssil em diversas indústrias, como a têxtil, de plástico, de papel e na construção civil.
“O Cânhamo, enquanto matéria prima, é extremamente versátil e dá origem a uma série de produtos sustentáveis ou eco friendly, capazes de substituir os derivados da indústria do petróleo, como plástico, fibra, tecido e concreto”, pontua a advogada e pesquisadora de cânhamo, Isabela Tamiozzo.
Um dos slogans mais representativos desse modo sustentável de produção de Cânhamo é: “tudo que é feito de plástico pode ser feito de cânhamo”, porém diferente do plástico convencional, são produtos que se decompõem com facilidade.
Por isso, a indústria de bioplásticos também vê no Cânhamo um aliado. Com a crescente demanda por alternativas ao plástico derivado de petróleo, o Cânhamo oferece uma solução biodegradável e de ciclo de vida sustentável.
Na construção, por exemplo, o “hempcrete”, uma mistura de fibras de Cânhamo com cal, é uma alternativa aos materiais tradicionais como o concreto.
Além de ser mais leve e altamente isolante, o hempcrete também é negativo em carbono, ou seja, ele captura mais CO2 do que o emitido durante sua produção.
Outra frente de inovação com o Cânhamo é na produção de biocombustíveis. A planta pode ser transformada em etanol e biodiesel, oferecendo uma alternativa aos combustíveis fósseis.
De acordo com um estudo da Renewable and Sustainable Energy Reviews, o Cânhamo possui um rendimento energético por hectare maior do que outras culturas tradicionais, como milho e soja, quando utilizado para biocombustíveis
Além disso, a produção de biocombustíveis de cânhamo tem a vantagem de ser menos intensiva em insumos, como fertilizantes químicos, o que a torna uma alternativa mais sustentável em comparação a outras fontes de bioenergia.
O plantio e os negócios de sustentabilidade do Cânhamo pelo mundo
Enquanto o mundo se abre economicamente e ecologicamente para o cultivo de Cânhamo, o Brasil segue a passos lentos, inclusive quando comparado com países da América do Sul, como Uruguai e Paraguai, que vem se tornando referências nesse cultivo.
“A China é o maior exportador de Cânhamo do mundo, seguido da Índia e da União Européia, com destaque para a França. O Paraguai, por conta da extensão do plantio da espécie no país, chegou a se tornar o primeiro país a atingir a neutralidade de carbono. Ainda temos os EUA e o Canadá com grandes vantagens nesse cenário”, esclarece Isabela.
Embrapa inicia projeto de pesquisas com cânhamo no Brasil
Essa realidade vem chamando a atenção de pesquisadores interessados em estudar esse amplo universo do cânhamo, entre eles os que atuam na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
Em julho deste ano, um grupo formado por 19 pesquisadores, entregou um relatório com um plano de ações estratégicas para o desenvolvimento da cadeia produtiva da planta no país à DP&I (Diretoria de Pesquisa e Inovação) da empresa e apresentou um pedido de cultivo de cânhamo em solo nacional para a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
O relatório propõe um programa de pesquisa que atuará em quatro vertentes conectadas: desenvolvimento de cultivares; práticas de manejo; pós-colheita e políticas públicas; economia e zoneamento.
Esses temas serão trabalhados tanto para cultivo com fins medicinais quanto para fins industriais.
“O objetivo é que as ações de PD&I embasem a construção de uma cadeia produtiva competitiva, inclusiva e sustentável de cannabis no Brasil. O foco é sempre na descentralização da produção e na inclusão socioprodutiva para maximizar o uso da terra, de modo a aumentar a renda de famílias e comunidades rurais, resultando, também, em ganhos na dimensão social. Para tal, uma das estratégias é o desenvolvimento de pesquisa em parceria com o setor privado, especialmente pequenos produtores”, frisa Daniela Matias de Carvalho Bittencourt, Pesquisadora – DSc Biologia Molecular da Embrapa.
Perspectivas econômicas do Cânhamo no Brasil
Existem algumas estimativas de mercado, produzidas pela Kaya Mind, que apontam para uma movimentação financeira em torno de R$ 5 bilhões, além de R$ 300 milhões em impostos e 300 mil empregos diretos, num prazo de quatro anos após a sua regulamentação.
Em termos de potencial de cultivo, ainda que o solo e o clima brasileiros indiquem grandes chances de prosperar essa modalidade agrícola, é preciso muita pesquisa para entender como essas plantas vão se comportar. Por isso, há urgência em se criar uma legislação que permita o cultivo para pesquisa.
Mesmo diante de tantas prospecções positivas para o cultivo de Cânhamo no Brasil, o país está super atrasado em termos de regulamentação.
Para se ter uma ideia, o Paraguai, o maior exportador da matéria prima da América Latina, regularizou seu cultivo em 2018.
“No Brasil, o mercado ainda enfrenta sérios desafios decorrentes de uma regulamentação restritiva. Portanto, ainda não é possível definirmos um impacto econômico preciso sem antes realizarmos um estudo mais aprofundado. No mundo, o mercado está em contínuo crescimento e movimenta bilhões, de acordo com a Cannabis Data Company (BSDA). Esse crescimento tem sido impulsionado por mudanças na legislação de diversos países, o que impacta em avanços na pesquisa científica e no desenvolvimento de novos produtos provenientes da planta, que dão origem a novos mercados”, pontua a pesquisadora da Embrapa, Daniela Bittencourt.
Apesar de suas inúmeras vantagens, o cânhamo ainda enfrenta desafios para se consolidar como uma solução de larga escala. Neste ponto, é preciso pensar na planta como uma commodity.
“Não acredito que seja de todo o mal o Cânhamo se tornar uma commodity, já que ele é uma matéria prima basilar para a produção de diversos produtos. Porém, o diferencial está justamente no seu perfil sustentável, diferente da soja e do algodão. Mas, precisamos pensar em como esse processo vai acontecer, unindo a sustentabilidade do Cânhamo ao agronegócio. Por isso, é preciso incluir pequenos produtores rurais e pequenas empresas nesse ciclo de produção, dando oportunidades para que eles façam parte dessa cadeia, seja com isenções ou descontos fiscais, por exemplo”, reforça Isabela.
O principal obstáculo é a regulamentação. Embora a planta tenha sido descriminalizada em vários países, incluindo o Brasil, as restrições em torno do cultivo e da comercialização de produtos à base de cânhamo ainda limitam sua expansão.
Com uma combinação única de benefícios ambientais e econômicos, o cânhamo emerge como uma das plantas mais versáteis e sustentáveis em tempos de crise climática.
Sua capacidade de sequestro de carbono, seu uso em bioplásticos e biocombustíveis, e o impacto positivo no solo fazem dele uma escolha ideal para a agricultura regenerativa e para indústrias que buscam reduzir suas pegadas de carbono.
O potencial do cânhamo vai muito além de seu estigma histórico e pode ser um grande aliado na luta contra as mudanças climáticas.
Fontes bibliográficas

Formada em jornalismo há quase 20 anos, Thais já passou pelas editorias de meio ambiente, turismo, cultura e gastronomia trabalhando por 17 anos na Chapada Diamantina onde deu aulas de comunicação e publicou três livros pelo Senac. Nos últimos cinco anos vem se dedicando exclusivamente a assuntos relacionados à política de drogas, à terapia cannabica, e psicodélicos, produzindo conteúdo para diferentes portais de notícias do gênero.
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