Quais são os principais sintomas do transtorno de estresse pós-traumático e como a Cannabis e os psicodélicos podem ajudar no tratamento.
Sumário
- O que é o Transtorno de Estresse Pós-Traumático?
- Sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático
- Como ocorre o diagnóstico do Transtorno de Estresse Pós-Traumático?
- O que acontece no cérebro de uma pessoa com Transtorno de Estresse Pós-Traumático?
- O tratamento para Transtorno de Estresse Pós-Traumático
- A Cannabis como tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático
- Os psicodélicos como opção de tratamento para Transtorno de Estresse Pós-Traumático
- Considerações finais
Eventos traumáticos muitas vezes podem marcar a vida de alguém, uma consequência deles pode ser o Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Nesse texto explicaremos mais sobre o transtorno e como a Cannabis e outros psicodélicos podem ajudar no alívio dos sintomas.
O que é o Transtorno de Estresse Pós-Traumático?
O Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é um transtorno psiquiátrico que se desenvolve como resposta a um evento traumático e extremamente estressante.
Esse evento pode ser algo que a pessoa tenha vivenciado, testemunhado ou que alguém próximo a ela tenha passado: acidentes graves, desastres naturais, agressões físicas ou sexuais, conflitos armados e outros são exemplos de eventos traumáticos.
No entanto, cada indivíduo pode ter uma percepção diferente sobre o que é considerado traumático.
A prevalência de TEPT é de aproximadamente 11% para mulheres e 5,5% para os homens. A maior prevalência entre as mulheres se deve a uma maior vulnerabilidade, uma vez que a agressão sexual é um dos eventos traumáticos mais comuns nesse grupo.
De forma geral, o TEPT é caracterizado por sintomas recorrentes e angustiantes que persistem por pelo menos um mês após a experiência traumática.
Sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático
Cada pessoa pode manifestar de forma diferente os sintomas e sua intensidade. Os sintomas do TEPT podem variar amplamente entre os indivíduos, mas alguns dos mais comuns incluem:
- Pensamentos intrusivos e recorrentes sobre o evento traumático;
- Transtorno de humor, como ansiedade e depressão;
- Evitação de locais, conversas ou qualquer outra coisa que lembre o evento;
- Problemas relacionados ao sono, como pesadelos ou insônia;
- Reações emocionais ou físicas intensas, um exemplo são explosões de raiva;
- Perda de interesse por atividades que antes eram agradáveis;
- Problemas de memória;
- Medo, tensão ou nervosismo frequente.
Como ocorre o diagnóstico do Transtorno de Estresse Pós-Traumático?
O diagnóstico do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é realizado por um médico especialista baseado em critérios específicos, focando nos sinais e sintomas apresentados pelo paciente.
Entre os principais critérios diagnósticos estão:
- Presença de um evento traumático claramente identificável;
- Reviver de forma persistente o evento traumático, como através de lembranças intrusivas, flashbacks ou pesadelos;
- Estado de hipervigilância, que pode incluir irritabilidade, respostas exageradas de susto e dificuldade em relaxar;
Para que esses sintomas sejam considerados como parte do diagnóstico de TEPT, eles devem causar sofrimento significativo ao indivíduo ou interferir de forma considerável em seu funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes de sua vida.
O que acontece no cérebro de uma pessoa com Transtorno de Estresse Pós-Traumático?
O cérebro de uma pessoa com Transtorno de Estresse Pós-Traumático passa por modificações na sua estrutura e um desequilíbrio de neurotransmissores.
Os neurotransmissores são mensageiros químicos responsáveis pela comunicação entre os neurônios. Quando ocorre um problema nessa comunicação, ela pode ser exagerada ou reduzida.
Em termos mais detalhados, o que ocorre no cérebro é o seguinte:
- Aumento da responsividade na amígdala: Essa parte do cérebro nos ajuda a detectar ameaças, quanto mais reativa, maior a sensação de medo e ansiedade;
- Diminuição do volume no córtex pré-frontal e no hipocampo: O córtex pré-frontal (a área do cérebro que nos ajuda a pensar e tomar decisões) e o hipocampo (que ajuda a controlar as memórias e o estresse) podem encolher, o que pode aumentar ainda mais a sensação de estado de alerta e ansiedade;
- Desequilíbrio no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal: Esse eixo coordena como reagimos ao estresse, causando uma resposta exagerada ou inadequada ao estresse, dificultando o controle das reações emocionais e físicas;
- Desregulação dos neurotransmissores: Pode haver um aumento da norepinefrina (relacionada ao estresse e ao alerta) e do glutamato (envolvido na excitação do cérebro), enquanto a serotonina (associada ao bem-estar e felicidade) pode diminuir;
O tratamento para Transtorno de Estresse Pós-Traumático
O tratamento para Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) tem como objetivo ajudar a pessoa a lidar com o evento traumático de forma menos angustiante.
A psicoterapia, como a terapia cognitivo-comportamental, pode ser eficaz ao auxiliar o paciente a modificar seus pensamentos e respostas relacionados ao trauma.
A exposição cuidadosa às memórias do evento traumático é um mecanismo eficaz para enfrentar e superar o trauma. Isso deve ser feito com a ajuda de um profissional qualificado.
O uso de medicamentos também pode ser necessário. Antidepressivos, ansiolíticos e outras medicações são utilizadas dependendo dos sintomas dos pacientes.
Muitas vezes, a combinação de psicoterapia e medicação pode proporcionar um tratamento mais completo.
Além dos medicamentos tradicionais, a Cannabis também pode ser considerada uma alternativa viável para o manejo dos sintomas do TEPT.
A Cannabis como tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático
O corpo humano é repleto de receptores canabinóides, que fazem parte do Sistema Endocanabinóide e interagem diretamente com a Cannabis.
Esses receptores são onde os fitocanabinoides (canabinóides presentes na planta) Canabidiol (CBD) e Tetrahidrocanabinol (THC) se conectam e realizam efeito terapêutico.
Além de tratar sintomas ligados à insônia, ansiedade e depressão, a Cannabis também pode atuar especificamente nos mecanismos do TEPT.
Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina mostraram em modelo animal que o CBD associado ao THC pode ajudar a enfraquecer as memórias traumáticas associadas ao TEPT.
Esse efeito é altamente benéfico, pois contribui para interromper o processo de consolidação das memórias traumáticas em pacientes.
Em um estudo com humanos envolvendo 400 pacientes com TEPT que faziam uso medicinal de Cannabis, os resultados foram promissores.
Entre os pacientes, 62% relataram redução nos pensamentos associados ao episódio traumático, 62% relataram uma diminuição nos ‘flashbacks’ relacionados ao trauma, 67% observaram uma redução na irritabilidade, e 57% relataram diminuição nos quadros de ansiedade.
Uma revisão analisou 10 estudos que utilizaram canabinóides derivados da planta ou sintéticos para tratamento do TEPT.
Foi demonstrado que os canabinóides melhoram os sintomas gerais de TEPT, incluindo a qualidade e a duração do sono, reduzindo a hiperexcitação e aliviando pesadelos resistentes ao tratamento convencional.
Outras substâncias, como os psicodélicos, também ganham destaque no tratamento do transtorno.
Os psicodélicos como opção de tratamento para Transtorno de Estresse Pós-Traumático
Países como Estados Unidos e Austrália estão pesquisando sobre o uso do MDMA (3,4-metilenodioximetanfetamina) para tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
A Austrália foi o 1º país do mundo a permitir a prescrição médica do MDMA para tratamento do TEPT.
O MDMA é popularmente conhecido como uma “droga de festa” e tem como efeitos mais comuns aumento da empatia, estado de euforia e sensação de prazer.
No contexto do uso supervisionado por psicoterapia, ele ganha destaque por ajudar a reduzir sintomas de TEPT ao promover uma maior conexão emocional, reduzir o medo e aumentar a confiança, facilitando o reprocessamento de memórias traumáticas.
Em um estudo com pacientes com TEPT resistentes ao tratamento, aqueles que receberam duas sessões de MDMA apresentaram melhores resultados do que os que receberam placebo.
De acordo com os resultados, 83% dos pacientes tratados com MDMA não preenchiam mais os critérios para TEPT, em comparação com apenas 25% no grupo placebo.
O acompanhamento a longo prazo revelou que os efeitos positivos do tratamento persistiram por até três anos.
É importante ressaltar a importância da supervisão profissional e a combinação com psicoterapia para garantir segurança e eficácia no tratamento.
Considerações finais
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) afeta milhões de pessoas e pode causar grande sofrimento.
Apesar de tratamentos tradicionais, como psicoterapia e medicamentos, serem eficazes para muitos, algumas pessoas não respondem bem a essas abordagens.
Novos tratamentos, como a Cannabis e substâncias psicodélicas como o MDMA, são consideradas promissoras, oferecendo alívio significativo dos sintomas do TEPT.
Mais pesquisas são necessárias nessas novas abordagens para proporcionar opções de tratamento mais eficazes, melhorando a qualidade de vida dos pacientes.

Farmacêutica, neurocientista e antiproibicionista.
Mentranda em neurociências pela UFSC. Pesquisadora da Cannabis. Amante das plantas e da ciência. Acredito que a conhecimento é uma das formas para expansão da consciência e por isso luto para propagar ele.
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