O uso terapêutico da Cannabis ajuda a minimizar os sintomas do transtorno de ansiedade e a melhorar a qualidade de vida.


Sumário

Enquanto muitas pessoas relacionam o desenvolvimento da ansiedade pelo uso da maconha, a ciência vem desvendando que o uso medicinal da cannabis auxilia no alívio das crises de ansiedade.

Uma pesquisa realizada na Suécia e publicada no Science Direct – Journal of Affective Disorders mostrou que o uso de produtos à base de cannabis não desencadeou distúrbios de ansiedade e depressão nos quase mil participantes do estudo.

Pensando nisso, o objetivo deste artigo é refletir sobre como é o diagnóstico e quais são os principais sintomas do transtorno de ansiedade e, principalmente, as formas de tratamento — em especial, como a cannabis pode ser uma alternativa importante para esse tratamento

Um mundo mais ansioso pós pandemia

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), publicados pela CNN                                       em 2023, cerca de 26,8% dos brasileiros receberam diagnóstico médico de ansiedade. 

Dado que mantém o Brasil como um dos países mais ansiosos do mundo desde 2017, quando a OMS revelou essa realidade no país. 

Paralelamente a isso, a importação de produtos à base de cannabis aumentou 93% no Brasil nos últimos 12 meses, de acordo com dados publicados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e divulgados pelo G1, também em 2023, sendo uma parcela considerável para distúrbios de ansiedade.

Uma pesquisa realizada pela Startup Guia da Alma registrou que mais de 60% das pessoas sentem alto nível de ansiedade, ainda que sem um diagnóstico clínico comprovado. 

Os dados foram coletados com 24.180 brasileiro através de perguntas online entre janeiro de 2020 e agosto de 2023 (durante e pós pandemia).

A nível mundial, entre 2018 e 2022, a Global Health Service Monitor, monitorou um aumento de 20% na preocupação das pessoas com questões de saúde, ou seja, nunca se falou tanto sobre ansiedade e depressão como nos últimos anos.

O Relatório Mundial de Saúde Mental de 2022, apontou que dentre os fatores que potencializam as crises de ansiedade mundo afora estão:

  • Isolamento social;
  • Percepção de solidão;
  • Preocupações financeiras/desemprego;
  • Medo de adoecer;
  • Perda de vínculos afetivos com familiares e amigos.

Como identificar as crises de ansiedade?

É importante entender que a ansiedade é uma reação natural do corpo. Ou seja, em certo nível é normal sentir ansiedade, pois ela nos protege de situações desafiadoras como ameaça, perigo, dor ou sofrimento.

Ela se expressa no corpo causando sensações de desconforto no campo físico, emocional e mental, e se caracteriza por preocupação intensa, nervosismo, medo de situações cotidianas e sensação de angústia.

Quando essas sensações são muito intensas a ponto de interferir no dia a dia da pessoa, limitando seu comportamento, é preciso procurar orientação médica para buscar alternativas de controlar esse distúrbio.

Sintomas mais comuns do transtorno de ansiedade

Dentre os sintomas mais comuns do transtorno de ansiedade estão: 

  • Pânico, medo e inquietação;
  • Problemas com o sono/Insônia
  • Dificuldade para se acalmar;
  • Respirar ofegante (hiperventilação);
  • Dificuldade de concentração.
  • Tensão muscular, 
  • Taquicardia ou palpitação, dor no peito, transpiração em excesso, dor de cabeça, tontura;

Sintomas de transtorno de ansiedade excessiva:

  • Limitações no cotidiano;
  • Sensação paralisante;
  • Sofrimento e incapacidade;
  • Crises de ansiedade intensa e prolongada.

Diagnóstico e tratamento do transtorno de ansiedade

A primeira etapa do tratamento de ansiedade passa pelo diagnóstico, que obrigatoriamente deve ser feito por um profissional da saúde.

Não existem exames clínicos específicos que possam confirmar o diagnóstico de TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada). 

O diagnóstico é baseado em uma avaliação cuidadosa dos sintomas e no histórico médico geral e psiquiátrico do paciente.

Independente do tratamento indicado, os primeiros passos para o controle das crises requer uma mudança nos hábitos de vida, como por exemplo:

  • Adesão a atividades físicas.
  • Tempo para lazer.
  • Cuidados com a alimentação.
  • Adequação para uma rotina de sono mais regulada.
  • Diminuição do uso de telas.

Porém, essa mudança de hábitos deve estar aliada ao acompanhamento de um profissional, ou seja, a tão falada terapia. 

Em alguns casos, principalmente nos mais graves e acentuados, o uso de medicamentos farmacológicos, ainda que somente na fase inicial, pode ser indicada.

Porém, é importante reforçar que os medicamentos convencionais apresentam um alto índice de dependência, além de efeitos colaterais, como, por exemplo, enjoo, tontura, boca seca, constipação intestinal, visão turva, taquicardia, sudorese, tremores e alterações no apetite.

Produtos à base de cannabis como alternativa segura para o tratamento do transtorno de ansiedade

O Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, realizou uma pesquisa em 2022, em parceria com diversos centros da América Latina, e constatou que cerca de 50% das pessoas com ansiedade não conseguiram boas respostas com tratamentos convencionais. 

Por outro lado, uma pesquisa publicada no The Journal of Clinical Psychiatry, em agosto de 2022, sugere que tratamentos com o CBD (canabidiol), um dos 100 componentes químicos da planta Cannabis, podem diminuir a ansiedade em até 50%.

“A pesquisa foi realizada com 31 pessoas com idades entre 12 e 25 anos, todas que não tiveram sucesso com outras formas de frear o grau da ansiedade no organismo. 

Nesse contexto de dificuldade em se tratar esse grupo de pacientes, a cannabis medicinal se torna, então, uma opção com baixo risco de efeitos colaterais, com um bom perfil de segurança e resultados significativos”, segundo matéria publicada na Veja. 

Um estudo publicado na revista JAMA Network detalhou a eficácia da cannabis medicinal para a redução de até 60% dos sintomas de ansiedade e depressão.

O que explica essa eficácia é que o CBD ao se conectar com SEC (Sistema Endocanabinoide), presente no corpo humano e responsável pela homeostase no organismo, promove a regulação dos níveis de serotonina, um neurotransmissor relacionado ao humor. 

Além disso, ajuda na modulação do sono e de uma melhor resposta ao estresse, por isso, auxilia na redução das crises de ansiedade

Ao contrário de muitos ansiolíticos convencionais, a cannabis não apresentou risco de dependência ou da presença de efeitos colaterais, muito comum nos fármacos, como os benzodiazepínicos. 

Os produtos ricos em THC, outro canabinoide da planta, ou com uma combinação de proporções iguais de CBD e de THC, não foram tão eficientes no controle das crises de ansiedade. É o que revelou uma pesquisa publicada em 2024 na revista Cannabis and Cannabinoid Research.

Mesmo sem um efeito mais efetivo no tratamento da ansiedade, a pesquisa não constatou que o THC agrava as crises.

Além do THC e do CBD, outro canabinoide que vem sendo estudado para esse tipo de tratamento é CBG (cannabigerol). Um estudo publicado no Scientific Reports, o CBG melhorou os índices de ansiedade, com redução no estresse e melhora na memória.

A Fiocruz realizou uma revisão sistemática sobre o uso de Cannabis Medicinal para transtornos mentais em 2020. “Observou-se que o CBD reduziu significativamente a ansiedade subjetiva percebida quando comparado ao placebo, sem causar sedação como o Diazepam.

Essa base ansiolítica do CBD é apoiada ainda por estudos de neuroimagem que associam a administração de CBD com atividade reduzida nas regiões límbicas e paralímbicas durante tarefas de processamento emocional da face”, pontua o relatório.

Como iniciar um tratamento com cannabis para transtorno de ansiedade

Apesar das pesquisas apresentarem evidência positivas sobre o uso medicinal da cannabis para o tratamento de ansiedade, a procura por um profissional da saúde que seja especializado nesse tipo de tratamento é indispensável, pois além do diagnóstico, é preciso de uma receita médica para comprar o produto indicado, seja através da importação autorizada pela Anvisa, seja na farmácia ou através das associações.

Além disso, é preciso avaliar se o paciente já tem histórico de uso da planta, principalmente do chamado uso adulto ou recreativo, para que seja avaliado o grau de tolerância do paciente aos canabinoides e assim, fazer o ajuste de composição e dosagem.

Em alguns casos, conforme explica o  psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor da  Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo), que orientou uma das primeiras (e únicas) pesquisas a avaliar a saúde mental e a qualidade de vida de pessoas que fazem uso recreativo de cannabis no Brasil, a depender da quantidade e da frequência do consumo, é possível que a pessoa apresente crises de ansiedade.

Ele alerta para o consumo da maconha entre os jovens menores de 21 anos. 

 “É absolutamente contra-indicado fumar maconha antes dos 21 anos. Essa é a idade em que o amadurecimento do cérebro termina. Antes dessa idade, os compostos presentes na planta podem afetar o desenvolvimento dos neurônios e das demais células do sistema nervoso, o que gera repercussões negativas pelo resto da vida. A maioria dos problemas psíquicos relacionados à cannabis aparece em indivíduos que experimentaram essa substância psicoativa em idades precoces”, pontua o médico.

Fazer o uso consciente de substâncias durante o tratamento sob a orientação de profissionais da saúde qualificados é fundamental para o sucesso que se espera. 

Fontes