Pesquisas científicas indicam que os canabinóides ajudam a regular o sistema digestivo.
O refluxo é uma sensação de mal-estar que causa muito desconforto. E o pior, muitas razões podem desencadear essa reação no organismo.
Inclusive, muitas vezes, o refluxo é um sintoma de uma doença mais grave ou decorre do uso de algum medicamento.
O objetivo desse artigo é explorar o que é, quais os sintomas e as alternativas de tratamento do refluxo, especialmente o que a ciência diz sobre o tratamento com Cannabis. Vamos lá?
O que é refluxo?
O refluxo gastroesofágico ou refluxo ácido, se caracteriza pela sensação de queimação na região do esôfago e na boca do estômago. É uma condição em que o ácido do estômago retorna para o esôfago, causando esse desconforto.
Este distúrbio afeta milhares de pessoas ao redor do mundo, no Brasil, segundo dados divulgados pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva, são cerca de 25 milhões de pessoas convivendo com refluxo.
Sintomas do refluxo
Além desse desconforto da queimação, há outros sintomas como: tosse seca, dor de garganta e problemas odontológicos que também podem indicar essa patologia, já que o excesso de acidez pode afetar outras regiões do corpo, como a boca.
É comum que ao fazer uma refeição muito pesada ou comer rápido demais, sentir uma certa azia. Porém, quando essa sensação é recorrente, é preciso diagnosticar e dar um início ao tratamento, pois o agravamento dessa doença pode evoluir para um situação pré- cancerosa.
O diagnóstico correto é feito através de dois exames: o pHmetria, que mede o pH do esôfago e detecta distúrbios relacionados à acidez e a manometria, para aferição da pressão de várias partes do trato digestório.
O que pode ocasionar o refluxo?
As principais causas de refluxo são:
- Obesidade
- Refeições volumosas antes de deitar
- Aumento da pressão intra-abdominal
- Consumo em excesso de bebidas ácidas e gaseificadas, como café, chá preto, chá mate, açúcar.
- Consumo excessivo de alimentos ultraprocessados.
- Consumo excessivo de bebidas alcoólicas
- Hábito de fumar
- Excesso de exercícios abdominais
- Fatores genéticos
- Postura inadequada após uma refeição
- Stress e ansiedade
Caminhos para tratar o refluxo
As primeiras medidas a serem tomadas no tratamento do refluxo são a mudança e a frequência da alimentação.
Adotar uma dieta mais natural, sem ultraprocessados, com baixo consumo de açúcar, sem bebidas alcoólicas e gaseificadas, sem alimentos ácidos ou muito apimentados são essenciais.
Fazer refeições fracionadas ao longo do dia é melhor do que comer poucas e em mais quantidade. Evitar beber líquidos durante as refeições e deitar após comer.
Além disso, reclinar a cabeceira da cama ajuda a evitar que o suco gástrico retorne para o esôfago, reduzindo a queimação.
No tratamento convencional, as medicações indicadas são os antiácidos e inibidores de bomba de prótons, que ajudam reduzir a produção de ácido estomacal.
Porém a lista dos efeitos colaterais é grande: dor de cabeça, diarreia, prisão de ventre, dor abdominal, náusea, gases, vômito, regurgitação, tontura, erupção cutânea, fraqueza, dor nas costas, tosse, sensação de formigamento, sonolência, insônia, vertigem, boca seca, dor ou fraqueza muscular, bolhas vermelhas na pele e a médio longo prazo até demência.
Incluir na rotina prática de atividades físicas, principalmente no caso de pessoas obesas, e atividades de lazer ajudam a controlar a ansiedade e como consequência, ameniza os sintomas do refluxo
A cannabis como alternativa de tratamento para refluxo
Nos últimos anos, a Cannabis tem sido investigada como uma opção terapêutica para uma série de condições, incluindo o refluxo gastroesofágico.
Afinal, é através da rede de receptores e enzimas presente em todo o corpo humano, chamado SEC (sistema endocanabinoide) que os compostos químicos da Cannabis se conectam ao organismo promovendo a regulação de diversos processos fisiológicos, como dor, inflamação, humor e motilidade gastrointestinal.
Esse sistema é composto principalmente por dois receptores: o CB1 e o CB2. O receptor CB1 é encontrado em várias regiões do sistema digestivo, sugerindo que o SEC tem um papel crucial no controle de funções gástricas, incluindo a secreção de ácido e o esvaziamento gástrico, dois fatores intimamente ligados ao refluxo.
Dentre as centenas de canabinoides que se encontram na cannabis, o THC (tetrahidrocanabinol ) e o CBD (canabidiol), são os mais estudados e apresentam efeitos anti-inflamatórios e moduladores da dor. Já existem estudos que indicam que eles podem ajudar no alívio de sintomas associados ao refluxo.
A Cannabis e o alívio dos sintomas do refluxo
Estudos iniciais sugerem que os canabinoides podem ajudar a regular o sistema digestivo, reduzindo a produção excessiva de ácido e melhorando a motilidade intestinal.
Em pacientes com refluxo, a superprodução de ácido e o esvaziamento lento do estômago são fatores que agravam os sintomas.
Através da ativação dos receptores CB1, os canabinoides podem reduzir a produção de ácido gástrico e melhorar a digestão, diminuindo assim os episódios de refluxo.
Além disso, o CBD é amplamente conhecido por suas propriedades anti-inflamatórias, que podem ser particularmente benéficas no tratamento da esofagite, uma inflamação do esôfago muitas vezes associada ao refluxo crônico.
O efeito calmante e protetor do CBD pode ajudar a reduzir a inflamação na mucosa esofágica, aliviando o desconforto e promovendo a cicatrização.
Evidências clínicas da eficácia do tratamento com Cannabis
A conexão da Cannabis com o corpo humano através do SEC promove a regulação do organismo em diversos aspectos, trazendo boas respostas para dores, inflamações, modulação do humor, melhora do sono, apetite, ou seja, uma vida com mais qualidade.
Essa regulação já impacta positivamente no alívio dos sintomas do refluxo. Porém, uma pesquisa que analisou os efeitos da Cannabis no sistema GI (gastrointestinal), revelou que “a presença e função do receptor CB2 no tracto GI, embora ainda não bem caracterizada, é uma grande promessa devido ao seu papel imunomodulador em sistemas inflamatórios e à sua falta de efeitos psicotrópicos”.
Esta revisão destaca o papel da Cannabis na regulação da motilidade anormal, ou seja, na melhora da inflamação intestinal e na limitação da sensibilidade visceral e da dor.
A pesquisa indica que os receptores CB2 representam “um sistema de travagem e um mecanismo fisiopatológico para a resolução da inflamação e de muitos dos seus sintomas”.
A ativação do receptor CB2 representa, portanto, um alvo terapêutico em estados inflamatórios gastrointestinais onde há ativação imunológica e disfunção da motilidade.
Os pacientes que foram acompanhados na pesquisa relataram melhorias na dor abdominal, diarreia e perda de apetite — sintomas que também são frequentemente associados ao refluxo severo.
No entanto, os pesquisadores destacam que mais ensaios clínicos em larga escala são necessários para confirmar os efeitos terapêuticos da Cannabis especificamente no refluxo ácido.
Além disso, a forma de consumo da cannabis (fumada, vaporizada ou em óleo) e as doses ideais ainda precisam ser estudadas para garantir eficácia e segurança.
Uma outra pesquisa revela que o SEC está envolvido na regulação da ingestão de alimentos, controle de náuseas e vômitos, além da produção de secreção gástrica, gastroproteção e motilidade GI.
Efeitos colaterais da Cannabis
Embora a cannabis tenha potencial terapêutico, também é importante estar ciente dos possíveis efeitos colaterais, especialmente quando utilizada em doses elevadas.
O THC, por exemplo, pode causar efeitos psicoativos, como tontura, alterações no humor e, em alguns casos, aumento da ansiedade.
No contexto do refluxo, alguns especialistas alertam que fumar cannabis pode irritar as vias aéreas e agravar os sintomas.
O CBD, por outro lado, é considerado mais seguro e bem tolerado, pela ausência do efeito de alteração da mente, por isso, tem menos efeitos adversos relatados.
Contudo, como muitos medicamentos, a cannabis pode interagir com outros fármacos utilizados para tratar o refluxo, como os inibidores da bomba de prótons.
Por isso, é fundamental que o uso medicinal da Cannabis seja sempre supervisionado por um médico.
Considerações finais
O uso da cannabis como tratamento para o refluxo gastroesofágico é um campo promissor, mas ainda em estágio inicial de pesquisa.
As evidências científicas preliminares sugerem que os canabinóides, podem ajudar a aliviar sintomas associados ao refluxo, como dor, inflamação e produção excessiva de ácido gástrico.
No entanto, são necessários mais estudos clínicos para confirmar esses achados e definir protocolos de tratamento eficazes e seguros.
Até lá, é essencial que pacientes interessados no uso de cannabis medicinal consultem seus médicos e considerem cuidadosamente os benefícios e riscos potenciais antes de iniciar qualquer terapia baseada em cannabis.

Formada em jornalismo há quase 20 anos, Thais já passou pelas editorias de meio ambiente, turismo, cultura e gastronomia trabalhando por 17 anos na Chapada Diamantina onde deu aulas de comunicação e publicou três livros pelo Senac. Nos últimos cinco anos vem se dedicando exclusivamente a assuntos relacionados à política de drogas, à terapia cannabica, e psicodélicos, produzindo conteúdo para diferentes portais de notícias do gênero.
Deixe um comentário