Sumário

  1. Cannabis e espiritualidade: uma conexão ancestral
  2. O uso ritualístico da Cannabis na Índia
  3. O uso espiritual da Cannabis na China
  4. Referências bíblicas do uso espiritual da Cannabis
  5. A Cannabis na cultura Rastafari 
  6. Conexão da Cannabis com a espiritualidade no mundo contemporâneo
  7. O uso recreativo da Cannabis também é ritualístico?

Pensar na conexão entre Cannabis e espiritualidade remonta tempos antigos, quando nossos ancestrais se reuniam em torno do fogo para consagrar o uso da planta como forma de alcançar uma experiência divina.

Alguns milhares de anos antes de Cristo, diversas etnias e tribos, espalhadas por diferentes regiões do mundo, deixaram registros arqueológicos de que o uso ritualístico da Cannabis acompanha a história da humanidade.

Fato é que ao longo da jornada humana na Terra, há uma relação simbiótica do homem com espécies da plantas de poder.

Ou seja, que causam algum tipo de alteração da consciência e que ocupam esses papéis espirituais em culturas centrais. 

A Cannabis, apesar de ser atualmente mais popular por seus usos medicinais e recreativos, é também uma dessas plantas que possui uma longa trajetória como ferramenta ritualística em diversas tradições espirituais ao redor do mundo.

Pensando nisso, o objetivo desse artigo é refletir sobre a conexão entre a Cannabis e a espiritualidade a partir da perspectiva de diferentes populações.

Cannabis e espiritualidade: uma conexão ancestral

Descobertas arqueológicas e registros em antigas escrituras evidenciam o uso ritualístico da Cannabis.

Muitas civilizações consideravam a Cannabis como uma planta sagrada nos tempos antigos, justamente por ampliar a percepção da mente devido ao seu fator psicoativo.

Por isso, acreditvam que ela servia como uma ponte de conexão com o divino e os poderes invisíveis.

O uso ritualístico da Cannabis na Índia

Na Índia, por exemplo, o uso espiritual da Cannabis é evidente na prática do hinduísmo, que associa a ao deus Shiva.

Textos sagrados hindus, como os Vedas, mencionam a planta como uma das “cinco ervas sagradas” dadas à humanidade.

Durante o festival Maha Shivaratri, devotos consomem o bhang, uma bebida feita com folhas de Cannabis, leite e especiarias, como forma de alcançar a comunhão espiritual. 

Muitas vezes, essa conexão da Cannabis com o sagrado se reverencia ou se associa a entidades sagradas, como a Deusa Sechat, no Egito ou Shiva, no hinduísmo.

O uso espiritual da Cannabis na China

Um estudo de 2019 da revista Science Advanced contém as primeiras evidências claras do uso da Cannabis em rituais religiosos na China há 2500 anos, através da análise de uma escavação que comprovou restos da Cannabis num claro cenário ritualístico.

Essas descobertas surgerem que as pessoas usavam a Cannabis para induzir estados de consciência e facilitar as conexões espirituais.

A descoberta apoia a suspeita de que as plantas de Cannabis foram usadas pela primeira vez devido a seus compostos psicoativos nas regiões montanhosas do leste da Ásia, e depois se espalharam para outras regiões do mundo” – Nicole Boivin, do Instituto Max Planck para a História da Ciência.

Além dos chineses e indianos, pesquisas arqueológicas revelam que muitos outros povos faziam uso da Cannabis, tanto pelo seu potencial farmacêutico como espiritual, entre eles: , egípcios, árabes, gregos, japoneses, hindus, romanos e, inclusive, mais recente, nas populações das Américas.

Heródoto, o historiador grego, descreveu por volta de 500 a.C. como os citas, um povo nômade que habitava as estepes da Ásia Central, usavam sementes de Cannabis em tendas fechadas, inalando a fumaça durante rituais fúnebres.

Esse uso tinha a intenção de purificar o corpo e a mente e permitir uma conexão espiritual com os mortos.

Referências bíblicas do uso espiritual da Cannabis

Tanto o novo como velho testamento da Bíblia fazem referência ao uso de um óleo sagrado para tratar indivíduos.

Alguns estudiosos, como  David Bienenstock, sugerem que o termo kaneh bosm encontrado no Antigo Testamento (Êxodo 30:23) poderia se referir à Cannabis.

Esse “óleo sagrado” tinha funções e rituais de purificação e acredita-se que tenha sido utilizado por sacerdotes para facilitar o contato espiritual com YHWH, o Deus de Israel.

O que mais me chama a atenção quando penso no uso ancestral é saber que Jesus Cristo usava um óleo ungido, mencionado na bíblia como kaneh bosm, que em hebraíco tem tradução para canna, cannabis. Hoje, o cristianismo prega contra essa planta, mas registros históricos estão comprovando que Jesus se utilizava dela.

Por isso, a importância de entendermos toda a ritualística que envolve essa planta, que trata pessoas, que cura e que por anos vem sendo proibida e que agora, pela ciência, estamos vendo o quanto nos conectamos com ela, inclusive no aspecto espiritual”, Amanda Pietra, pesquisadora e influenciadora que se dedica à exploração e divulgação das medicinas naturais e psicodélicas, com um enfoque histórico e respeito pelas práticas ancestrais.

Segundo um novo estudo de 2019, Judeus na antiguidade usavam maconha em seus rituais religiosos. Inclusive, encontraram restos de maconha em um templo de 2,7 mil anos de idade no sítio arqueológico de Tel Arad, na região central de Israel.

No estudo do jornal arqueológico da Universidade de Tel Aviv, os arqueólogos dizem que identificaram nas escavações THC (tetra-hidrocanabinol), CBD (canabidiol) e CBN (canabinol), que são compostos da maconha.

O estudo acrescenta que as descobertas em Tel Arad indicam que a maconha também teria sido utilizada em cultos no Primeiro Templo de Jerusalém.

A Cannabis na cultura Rastafari 

Outro exemplo emblemático é o rastafarianismo, um movimento religioso que surgiu na Jamaica nos anos 1930. Para os rastafáris, a Cannabis, que chamam de “ganja”, é uma erva sagrada. 

Seu uso está diretamente ligado à meditação e à comunhão espiritual em rituais que chamam de “reasoning sessions”.

Nesses encontros, participantes buscam discutir questões espirituais, políticas e sociais enquanto compartilham a ganja como um sacramento.

De maneira semelhante, em algumas tradições indígenas da América do Norte e do Sul, incorporam a Cannabis a práticas espirituais mais contemporâneas, alinhando-se com um movimento global de reaproximação com plantas medicinais e visionárias.

Conexão da Cannabis com a espiritualidade no mundo contemporâneo

Nos últimos anos, o uso ritualístico da Cannabis ganhou um novo contexto dentro da busca por espiritualidade no mundo moderno.

Grupos que praticam meditação, yoga e terapias integrativas passaram a incorporar a Cannabis como ferramenta para aprofundar estados meditativos e introspectivos.

Uma das vertentes da religião do Santo Daime, que tem a frente o Padrinho Sebastião, consagra a Cannabis, chamada de Santa Maria, junto com o chá de Ayahuasca.

A interação das substâncias da bebida e da maconha, potencializam a experiência sagrada durante o ritual.

O consumo moderado e ritualístico da planta pode induzir sentimentos de expansão da consciência, facilitando experiências místicas ou de unidade com o universo. É o que revela um estudo publicado no PubMed em 2021

Apesar da prática espiritual da Cannabis acompanhar a história da humanidade há milhares de anos, quase nenhuma atenção foi dada à forma como os adultos contemporâneos a empregam espiritualmente. 

Porém, a pesquisa, que contou com uma amostra de 1087 participantes, mostrou que o benefício espiritual da cannabis foi relatado por 66,1% da amostra.

Os resultados sugerem que atualmente, os motivos espirituais para o uso de cannabis podem ser generalizados. 

O uso recreativo da Cannabis também é ritualístico?

O ato de se juntar em roda entre amigos para compartilhar um cigarro de maconha é uma herança ancestral de uma das formas de uso da planta.

Além disso, as propriedades terapêuticas da planta agem da mesma forma no sistema endocanabinoide, independentemente se a pessoa está usando dentro de um ritual específico ou não.

Afinal, não existem espécies de Cannabis dedicadas exclusivamente a um tipo de suo: seja para o uso espiritual ou medicinal ou recreativo.

A planta é uma só, mesmo diante dos diversos tipos e das variedades de cruzamento de sementes e, portanto, das concentrações de cannabinoides e terpenos.

Quando penso em maconha e espiritualidade o que me vem à mente, e que eu considero o mais espiritual, é a reconexão com o coletivo, a comunidade que se forma para pitar, para dialogar e os insights que a planta proporciona nessa experiência. É como se a espiritualidade dialogasse com todos ali, mesmo se o ato seja através de uma reza ou não. Esse ato de se juntar já é revolucionário, já é o tribar, a construção de uma comunidade. Esse despertar espiritual que a planta traz agora está sendo comprovado pela ciência, através do sistema endocanabinoide, ou seja, é uma tecnologia ancestral”, pontua Amanda.

Para a jornalista especializada em terapia Cannabica e psicodélica, Caroline Apple, o uso ritualístico no campo da ascensão espiritual exige de nós uma intenção.

A vida pra mim é um ritual, mas quando nos permitimos fazer uma consagração da planta é a intenção que muda. Quando nos conectamos espiritualmente com essa planta temos a oportunidade de acessar oitavas mais altas de compreensão sobre tudo o que a engloba para além das questões egóicas. Acessamos compreensões que são inerentes ao mundo, ao coletivo. Isso nos permite fazer parte das tomadas de decisões e das transformações, afinal, as respostas são coletivas. Por isso, a ritualização e consagração desta planta permite uma visão mais ampliada capaz de congregar todos os benefícios, seja na esfera pessoal como planetária”, enfatiza Caroline. 

O ressurgimento do interesse pela cannabis como ferramenta espiritual reflete um desejo humano de reconexão com a natureza e consigo mesmo.

Seja em cerimônias ancestrais ou em práticas contemporâneas, a Cannabis continua a ser um símbolo de transformação e transcendência.

Sua história reflete uma busca universal por significado e conexão, evidenciando a capacidade humana de encontrar espiritualidade nas forças mais simples e poderosas da natureza.