Sumário
- Contexto atual sobre o uso de Cannabis na gravidez
- O que dizem as pesquisas sobre os riscos do uso de Cannabis na gravidez
- Pesquisa recente sobre o uso de Cannabis na gravidez
- O estudo de Melanie Dreher na Jamaica
- Coletivo de mães que usam Cannabis
- Considerações finais
Muitos estudos indicam que a Cannabis é a droga ilícita mais utilizada durante a gestação. Há mais de 40 anos, bancos de dados perinatais mostram que milhares de mulheres de culturas ocidentais declaram que fumaram maconha em algum momento da gravidez.
Algumas mulheres grávidas apontam que a Cannabis ajuda a aliviar os enjoôs e a ansiedade. No entanto, os riscos do uso durante a gravidez ainda é um tabu — especialmente entre gestantes e obstetras.
Mas qual é exatamente o impacto do consumo da Cannabis na gravidez? O uso de maconha pode afetar o desenvolvimento do bebê? A forma de consumo e o momento da gravidez importa?
Nesse contexto, surgem muitas dúvidas. Mas a verdade é que, apesar de se falar bastante sobre o assunto, as pesquisas científicas ainda são pouco conclusivas.
Com o intuito de responder essas e outras questões, o objetivo desse texto é refletir sobre o consumo de Cannabis durante a gravidez, especialmente a partir das atuais evidências científicas.
Contexto atual sobre o uso de Cannabis na gravidez
Ao digitar no google maconha na gravidez o buscador vai trazer à tona matérias que apresentam os riscos que o uso da Cannabis pode trazer ao bebê, se a mãe fizer uso da erva durante a gestação.
No entanto, grande parte desses estudos avaliam esses riscos em mães, que além da maconha, fazem uso de outras substâncias concomitantes: como cigarro, álcool, craque, entre outras drogas.
Há poucas pesquisas cujos resultados derivam de gestantes que usam exclusivamente a erva. Uma delas é da cientista e antropóloga, Melanie Dreher, que desenvolveu um estudo sobre essa temática em uma aldeia rural na Jamaica, na década de 90.
Esse texto não pretende estimular o uso da Cannabis na gestação, mas trazer à tona um debate importante sobre o tema.
Afinal de contas, a falta de pesquisas específicas com gestantes usuárias somente de Cannabis dificulta a avaliação precisa sobre os riscos pro bebê.
E, por outro lado, o proibicionismo e o preconceito são barreiras que impedem o avanço dos estudos científicos sobre esse tema.
“Uma das consequências da proibição e do entendimento de que o uso de drogas consideradas ilícitas deve ser deixado por conta da repressão policial, é a falta de pesquisas sobre seus efeitos no organismo humano”, trecho extraído da coluna de Dráuzio Varella no portal UOL.
Por outro lado, há uma série de medicamentos da indústria farmacêutica prescritos por profissionais da saúde que comprovadamente causam diversos defeitos congênitos.
É o caso de remédios para náuseas que contém cloridrato de ondansetrona, que causam fissuras no palato, pés tortos, craniossinostose e malformações nos corações de recém-nascidos.
O que dizem as pesquisas sobre os riscos do uso de Cannabis na gravidez
Em linhas gerais, os estudos sugerem que o uso de Cannabis na gravidez traz riscos ao bebê, como apresenta esse compilado de estudos da revista Jama, por exemplo.
As consequências do uso de maconha na gravidez incluem possíveis complicações obstétricas e impactos no desenvolvimento fetal. Pesquisas associam o consumo de Cannabis ao risco de:
- Restrição do crescimento intrauterino, pode levar a um bebê com baixo peso ao nascer;
- Parto prematuro, aumentando a chance de problemas de saúde no recém-nascido;
- Problemas no desenvolvimento cognitivo e comportamental, como dificuldades de aprendizado, memória e maior predisposição a transtornos de atenção durante a infância.
Porém, é preciso avaliar em detalhes os métodos de pesquisa, já que em muitos casos são utilizados teste em animais com canabinoides sintéticos, como é o caso desse estudo.
Os canabinoides sintéticos são análogos aos provenientes da maconha e, portanto, não desempenham as mesmas ações que os canabinoides de origem natural.
Pesquisa recente sobre o uso de Cannabis na gravidez
Um novo estudo realizado com mais de 119 mil crianças nos Estados Unidos mostrou que o uso de maconha no início da gestação pode não ter relação direta a atrasos no desenvolvimento infantil.
Neste caso, a pesquisa dividiu as gestantes em grupos que faziam uso de outras substâncias além da maconha e das que usavam a planta com exclusividade.
No entanto, pesquisadores sugeriram que “apesar de não terem encontrado associação com atrasos no desenvolvimento infantil, os potenciais riscos neonatais e as mudanças observadas em estudos pré-clínicos justificam orientações de saúde pública para desincentivar o uso de Cannabis durante a gravidez”, trecho extraído do relatório da pesquisa.
De toda forma, os resultados oferecem uma base importante para orientar gestantes sobre o uso de Cannabis no início da gravidez.
Ou seja, indicam, embora os resultados não associem o uso da substância pelas mães a atrasos no desenvolvimento infantil, é preciso mais pesquisas sobre o tema para avaliar profundamente os potenciais riscos neonatal, além das evidências de impactos adversos em outras áreas da saúde infantil.
O estudo de Melanie Dreher na Jamaica
A pesquisadora Melanie Dreher desenvolveu uma das poucas pesquisas sobre o tema, em uma aldeia rural na Jamaica, na década de 90.
Durante vinte anos, Melanie Dreher realizou vários estudos sobre o desenvolvimento da saúde das mulheres e das crianças jamaicanas da comunidade e os resultados não mostraram nenhum impacto negativo sobre as crianças nascidas de mães usuárias ou lactantes.
Porém, um fato importante para considerar é que o principal órgão financiador da pesquisa, o Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas não ficou satisfeito com os resultados e parou de financiar a sua investigação. Perdeu-se, dessa forma, a oportunidade de continuar o estudo e acompanhar essas crianças até a adolescência e a fase adulta.
“Tínhamos um ambiente em que sabíamos que as mulheres eram expostas apenas à maconha. Na maioria dos estudos norte-americanos as mulheres usavam todos os tipos de drogas como álcool, tabaco, rapé e cocaína durante os estudos pré-natais… Muita publicidade na mídia foi dada a estudos americanos que pretendiam mostrar que a maconha causava defeitos de nascença ou sérios problemas de desenvolvimento, mas a maior parte desta pesquisa envolveu participantes que eram usuários de várias drogas, não somente de maconha”, declara Melanie em entrevista realizada pela Comitas Institute for Anthropological Study (Instituto Comitas de Estudos Antropológicos) realizada em dezembro de 1998.
Dreher, que conta com um currículo científico impecável, possui diplomas em enfermagem, antropologia e filosofia, juntamente com um Ph.D. em antropologia pela Columbia University, não tinha experiência anterior com maconha antes de sua pesquisa na Jamaica.
Ela agora defende seu uso e acredita que Raphael Mechoulam, o cientista que isolou o THC pela primeira vez, merece reconhecimento por seu trabalho.
Coletivo de mães que usam Cannabis
Desde 2022, um grupo de mães que faz uso da Cannabis se juntou para criar uma rede de apoio terapêutico a outras mães usuárias. O nome do grupo é Coletivo Segurando as Pontas.
O grupo tem à frente da gestão uma psicóloga, Marcelle Louzada e uma médica, Daniela Arruda, que, juntas, coordenam encontros semanais online e gratuitos, em que as mães trocam suas experiências maternas através do uso da planta.
Além do grupo terapêutico, o coletivo vem se configurando também em um importante campo de pesquisa.
“É preciso falar do uso da cannabis na maternidade com letramento, com pesquisa e estamos aqui pra isso. O coletivo reúne mais 4500 mães sendo que destas, 450 mães responderam questionários de pesquisa, ou seja, é um campo de pesquisa brasileira de forma independente e me sinto segura em falar isso, pois minha carreira é acadêmica, estou agora entrando no pós doutorado. Talvez não seja uma pesquisa legitimada no campo da psicologia, que é a minha formação, mas é uma pesquisa amparada pelo CNP (Conselho Nacional de Psicologia) onde publico estudos e falo sobre isso em diversas universidades, portanto sim, estamos produzindo pesquisas”, ressalta Marcelle.
Considerações finais
O fato é que o uso medicinal da maconha vem ganhando cada vez mais espaço. Cresce o número de países que legalizaram ou regulamentaram o uso, tanto recreativo como o medicinal, portanto a cannabis está em pauta.
Enfrentar o proibicionismo e o preconceito é urgente para que a ciência, de forma íntegra e legítima, possa operar pesquisas e revelar sem amarras ou conflitos de interesses quais os reais benefícios ou malefícios para a saúde dos bebês em gestantes usuárias da planta.
Na atual conjuntura, as evidências e opiniões se dividem. O fato é que em 12 mil anos de história do uso da planta nunca se constatou uma única morte que se relacione diretamente ao uso da Cannabis, seja em crianças, jovens, adultos ou idosos.
Mas é preciso criar condições ideais para a ciência manifestar os resultados reais e, a partir disso, se possível orientar mulheres sobre o uso da planta na gestação.

Formada em jornalismo há quase 20 anos, Thais já passou pelas editorias de meio ambiente, turismo, cultura e gastronomia trabalhando por 17 anos na Chapada Diamantina onde deu aulas de comunicação e publicou três livros pelo Senac. Nos últimos cinco anos vem se dedicando exclusivamente a assuntos relacionados à política de drogas, à terapia cannabica, e psicodélicos, produzindo conteúdo para diferentes portais de notícias do gênero.
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