Fique por dentro das evidências científicas sobre o tratamento de depressão com psicodélicos.
Sumário
- O que são psicodélicos?
- O que é a depressão?
- A ação dos psicodélicos no cérebro
- Como funciona o tratamento com psicodélicos?
- A evidência científica dos Psicodélicos como tratamento da depressão
- Psicodélicos ou medicamentos antidepressivos, qual é melhor?
- Considerações finais
Como funciona o uso dos psicodélicos como tratamento para depressão?
Eles estão sendo considerados como uma possível revolução no tratamento da saúde mental. Nesse texto iremos conhecer o que a ciência tem a dizer sobre o assunto.
O que são psicodélicos?
Os psicodélicos são substâncias psicoativas que possuem a capacidade de alterar a consciência, modificando o modo como sentimos e pensamos.
O termo “psicodélicos” surgiu na década de 1950, a partir da combinação de duas palavras gregas que, juntas, significam “manifestação da psique” ou “alma”, sugerindo especialmente o potencial para experiências de autoconhecimento.
A humanidade utiliza essas substâncias há séculos, principalmente em rituais e contextos espirituais, como é o exemplo da ayahuasca para os povos indígenas.
Nos últimos anos essas substâncias têm ganhado destaque para o tratamento de algumas condições relacionadas à saúde mental, como depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Isso se deve a forma diferente de como esse tratamento funciona.
Os psicodélicos oferecem vantagens adicionais, como o alívio rápido dos sintomas e a necessidade de poucas doses ao longo do tratamento, que geralmente dura de algumas semanas a poucos meses.
É uma experiência que tem o potencial de gerar um impacto enorme no modo de se sentir no mundo, ressignificando situações, traumas e promovendo uma nova percepção sobre si mesmo, as relações e o sentido da existência.
Existem diferentes tipos de substâncias psicodélicas, as mais estudadas são:
- Psilocibina: encontrada em algumas espécies de cogumelos;
- MDMA: popularmente conhecido como “ecstasy”;
- LSD: ácido lisérgico;
- Ayahuasca: bebida tradicional proveniente da Amazônia;
- Cetamina: um anestésico de uso médico que em diferentes dosagens possui efeito psicodélico;
Cada um deles possui diferentes efeitos no cérebro, mas todos compartilham a capacidade de expandir a percepção e facilitar um estado alterado de consciência.
Uma recomendação sobre o tema é a série da Netflix que em português se chama “Como mudar sua mente” baseado no livro com mesmo nome.
Cada episódio aborda o uso de um psicodélico diferente e tem informações muito interessantes.
O que é a depressão?
A depressão é um transtorno de saúde mental caracterizado por sentimentos persistentes de tristeza, perda de interesse em atividades, alterações no sono e apetite, e falta de energia. Ela pode afetar o humor, o comportamento e até funções físicas, como concentração e memória.
A depressão pode ser causada por uma combinação de fatores genéticos, biológicos, ambientais e psicológicos. Um desses fatores é a desregulação de determinados neurotransmissores, como serotonina, noradrenalina, dopamina, entre outros.
O nosso encéfalo (popularmente conhecido como cérebro) funciona a partir da comunicação desses neurotransmissores nos neurônios.
Quando ela não ocorre tão bem, pode gerar um desequilíbrio, influenciando diversas funções no nosso corpo, inclusive nosso humor.
É aí que os psicodélicos atuam.
A ação dos psicodélicos no cérebro
A maioria dos psicodélicos agem principalmente no sistema serotoninérgico do cérebro, que regula o humor, a percepção e a cognição.
Eles também promovem a neurogênese, que é a capacidade do cérebro de formar novas conexões entre neurônios. É como se novos caminhos fossem formados, permitindo que o cérebro se adapte melhor e funcione de forma mais eficiente.
A imagem abaixo representa isso. Em um estudo publicado em 2014, as ativações das conexões neuronais entre diferentes regiões do cérebro foram representadas por linhas dentro de círculos.
Legenda da imagem: As imagens, feitas com dados de ressonância magnética, comparam resultados sem o uso de psicodélicos (figura A) e com a substância psilocibina (figura B), onde podemos verificar um aumento significativo dessas conexões. Fonte: imagem retirada do estudo
Esse processo de neurogênese, que proporciona novas conexões, normalmente é afetado na depressão, o que está relacionado com os pensamentos rígidos e negativos que muitos pacientes apresentam.
Ao restaurar essa capacidade, os psicodélicos permitem que os pacientes saiam de padrões de pensamento negativos. Isso facilita a busca por novas maneiras de lidar com suas emoções, ressignificando situações e promovendo maior resiliência.
Como funciona o tratamento com psicodélicos?
Quando falamos em tratamento com psicodélicos no contexto terapêutico, falamos em algo com acompanhamento de profissionais qualificados para lidarem com aquele tema.
As substâncias são administradas em doses específicas dentro de um ambiente terapêutico, seguro e controlado.
A experiência é geralmente guiada por um terapeuta, que ajuda o paciente a processar as emoções e percepções que surgem durante a sessão.
As sessões costumam ser espaçadas e, muitas vezes, poucas doses são necessárias para alcançar benefícios terapêuticos, ao contrário de outros tratamentos, que podem exigir medicação diária por longos períodos.
Após a sessão, o acompanhamento com o terapeuta é crucial para integrar as experiências vivenciadas durante o tratamento.
Os psicodélicos não devem ser vistos como uma cura rápida ou mágica para a depressão. A maioria dos estudos indica que eles funcionam melhor quando utilizados como parte de um tratamento integrado, que inclui psicoterapia antes, durante e após as sessões com a substância.
Em alguns países, como Austrália, Canadá e alguns estados dos Estados Unidos, o uso medicinal dos psicodélicos já é permitido de forma legal.
No Brasil, apenas a ayahuasca e a cetamina possuem uso regulamentado. A ayahuasca em contexto ritualístico e/ou religioso. E a Cetamina para tratamento em casos mais graves de depressão.
A evidência científica dos Psicodélicos como tratamento da depressão
Diferentes substâncias psicodélicas estão sendo estudadas para o tratamento da depressão. Um exemplo é Ayahuasca.
A Ayahuasca é uma bebida que combina a mistura de duas plantas, o cipó mariri (Banisteriopsis caapi) e as folhas da chacrona (Psychotria viridis). O princípio ativo responsável pelos efeitos psicodélicos é o DMT (dimetiltriptamina).
A bebida tem origem amazônica, e é utilizada há milhares de anos por povos indígenas no contexto ritualístico e espiritual. O uso da Ayahuasca é permitido no Brasil dentro de rituais e cerimônias religiosas, como é o exemplo do Santo Daime.
Um estudo realizado no Brasil comparou os efeitos da Ayahuasca em relação ao placebo no tratamento da depressão. Cerca de 30 pacientes com depressão moderada a grave participaram do estudo, metade utilizou a ayahuasca e a outra metade o placebo.
Os pacientes foram avaliados durante 7 dias após uma única administração das substâncias. A taxa de resposta (redução dos sintomas) no sétimo dia foi maior no grupo Ayahuasca (64%) em comparação com o grupo placebo (27%).
Além disso, 36% dos pacientes que utilizaram Ayahuasca atingiram remissão, ou seja, não apresentaram mais sintomas depressivos, em comparação com 7% no grupo placebo.
Legenda da imagem: Comparação entre os sintomas depressivos nos pacientes antes e 7 dias depois do tratamento. Em vermelho são os sintomas nos pacientes que tomaram a ayahuasca, e em azul o grupo que recebeu o placebo.
Fonte: Gráfico retirado do próprio artigo
Outra substância estudada é a Cetamina, que inicialmente foi desenvolvida para uso anestésico, sendo utilizada para manter humanos e outros animais sedados durante procedimentos médicos.
Porém, desde o início se percebeu que pacientes submetidos ao uso tinham menos ansiedade e depressão. E aí se iniciaram os estudos para essa função.
Um estudo comparou o efeito antidepressivo da Cetamina com o do midazolam. O midazolam, conhecido por seu leve efeito sedativo, foi utilizado como controle, pois oferece um efeito semelhante ao da Cetamina em termos de sedação, mas sem a ação antidepressiva.
O estudo incluiu pacientes com diagnóstico grave de depressão. Ao todo, 47 receberam cetamina e 25 receberam midazolam, ambos por meio de uma única infusão em ambiente hospitalar, com acompanhamento de profissionais de saúde que monitoravam sua resposta às medicações.
Os pacientes foram avaliados antes e 24 horas depois da aplicação. O grupo que recebeu a Cetamina reduziu os sintomas depressivos em mais de 50%, o que é um resultado muito expressivo considerando que foi apenas uma aplicação com efeito em 24 horas.
O tratamento com Cetamina no Brasil já é permitido para casos mais graves de depressão, sendo regulamentado pela ANVISA desde 2020. Estando inclusive disponível no SUS (Sistema Único de Saúde) de forma gratuita.
Psicodélicos ou medicamentos antidepressivos, qual é melhor?
Um estudo comparou o efeito da Psilocibina ao antidepressivo Escitalopram. Com uma duração de 6 semanas, ele teve a participação de 59 pacientes com depressão de longa duração e resistente a tratamento.
A execução do estudo foi organizada da seguinte maneira: 30 pacientes receberam duas doses de 25 mg de psilocibina, com um intervalo de 3 semanas entre elas.
No grupo que utilizou Escitalopram, os participantes tomaram 10 mg da medicação diariamente durante as primeiras 3 semanas, seguido de um aumento para 20 mg por mais 3 semanas. Os dois grupos contaram com acompanhamento psicológico.
Ambos os grupos apresentaram redução dos sintomas depressivos. O grupo tratado com psilocibina registrou uma diminuição de 57%, enquanto os pacientes que utilizaram o antidepressivo tiveram uma redução de 28%.
Os pacientes foram acompanhados por mais 6 meses para avaliar o efeito a longo prazo do tratamento. O grupo que utilizou a psilocibina apresentou melhores resultados em várias medidas que avaliaram bem-estar, sentido de propósito na vida, desempenho no trabalho e funcionamento social.
Uma das principais diferenças entre os psicodélicos e os antidepressivos tradicionais é o tempo de ação e o número de doses necessárias.
Os antidepressivos tradicionais precisam ser tomados diariamente por semanas ou meses para manifestar os efeitos. Já os psicodélicos podem promover mudanças significativas em poucas sessões, com efeitos que podem durar meses após o tratamento.
Outro ponto é o mecanismo de ação, ou seja, a forma que a substância age no corpo.
Enquanto os antidepressivos aumentam os níveis de serotonina ao longo do tempo, os psicodélicos parecem agir em um nível mais profundo, facilitando uma “reconfiguração” do cérebro.
Isso inclui reflexões emocionais, ressignificação de traumas e uma mudança na maneira como o paciente percebe a si mesmo e o mundo ao seu redor.
Dessa forma, os psicodélicos podem ser uma opção terapêutica complementar para aqueles que já utilizam antidepressivos ou outra forma de tratamento, ou uma alternativa viável para pacientes que não respondem bem aos medicamentos convencionais.
Considerações finais
Os psicodélicos estão longe de ser uma solução mágica para a depressão, mas podem ser uma luz no fim do túnel para aqueles que não encontraram alívio nos tratamentos tradicionais.
O uso é promissor, mas ainda está cercado de desafios, principalmente em relação à regulamentação e à aceitação médica. Os resultados dos estudos clínicos até agora são animadores, mas é importante continuar com as pesquisas para garantir a segurança e a eficácia dessas substâncias.
Com a combinação certa de apoio psicológico e uso controlado dos psicodélicos, milhões de pessoas que sofrem de depressão podem encontrar alívio onde os tratamentos tradicionais falharam.
No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer até que os psicodélicos sejam amplamente aceitos como uma opção terapêutica legal e acessível.
Se você se interessa por esse tema ou conhece alguém que possa se beneficiar, vale a pena se informar mais e acompanhar os estudos que estão sendo realizados.
A ciência está sempre em evolução, e com ela, as possibilidades de novos tratamentos.

Farmacêutica, neurocientista e antiproibicionista.
Mentranda em neurociências pela UFSC. Pesquisadora da Cannabis. Amante das plantas e da ciência. Acredito que a conhecimento é uma das formas para expansão da consciência e por isso luto para propagar ele.
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