O Chemsex é a combinação do uso de substâncias ilícitas com atividades sexuais prolongadas e tem ganhado atenção crescente e alerta de saúde pública.
Sumário
- O que é chemsex?
- Existe uma cultura de Chemsex entre Heterossexuais?
- Quando a prática do chemsex ganhou fama?
- Drogas comuns no chemsex
- Quais são os riscos do chemsex à saúde?
- A cultura do Chemsex
- Distúrbios de uso de substâncias (SUDs)
- Estratégias de redução de danos
- Perspectivas da saúde pública
Dia desses um grande amigo, após uma noite fora de casa, me contou que havia encontrado outros dois rapazes para uma “festinha”.
Esse célebre encontro consistia em se reunir, utilizar metanfetamina e transar por horas a fio.
Mal sabia eu que essa prática tinha nome e apelido: chemsex. E está cada vez mais se tornando adepta daqueles que veem em substâncias perigosas, a oportunidade de despertar seu “lado animal”.
Famoso entre as grandes metrópoles europeias, o chemsex tem despertado preocupações significativas sobre os efeitos na saúde física e mental das pessoas que o praticam.
O que é Chemsex?
Chemsex refere-se ao uso de drogas para intensificar e prolongar a atividade sexual, prática predominante entre homens gays e bissexuais.
As principais substâncias envolvidas são a metanfetamina (Crystal Meth), a mefedrona (Meth) e o GHB/GBL.
Essa prática tem ganhado popularidade, especialmente através de aplicativos de encontros como o Grindr, que facilitam o encontro entre praticantes.
O uso de qualquer substância ilegal pode trazer sérios riscos à saúde. No caso do chemsex, os efeitos podem ser amplificados devido à combinação de drogas e sexo prolongado.
Nos Estados Unidos e Canadá, a prática é conhecida como Party ‘n’ Play (PnP), enquanto na Europa e Ásia é chamada de chemsex.
Tanto em encontros recreativos quanto em serviços sexuais pagos, essas substâncias são utilizadas para potencializar a experiência sexual.
Existe uma cultura de Chemsex entre Heterossexuais?
Não há dúvida de que heterossexuais cisgêneros usam drogas durante o sexo. Há casos de pessoas heterossexuais usando o termo PnP (Party ‘n’ Play) na internet para descrever suas atividades.
No entanto, o termo chemsex foi cunhado para descrever um fenômeno exclusivamente queer.
Quando a prática do chemsex ganhou fama?
Popularizado no final da década de 2010, a prática do chemsex se intensificou durante a pandemia de COVID-19.
Nesse ponto, percebeu-se que os aplicativos de encontros geolocalizados e o fácil acesso a novas drogas sintéticas facilitou a popularização da prática.
Em termos gerais, a motivação para o chemsex inclui a busca por prazer intensificado e conexão social, além de uma forma de escapar de problemas emocionais.
Drogas comuns no chemsex
Entre as substâncias mais frequentes no chemsex estão:
- Metanfetamina (Crystal Meth): Popular por aumentar a energia e a libido, geralmente fumada ou injetada.
- GHB e GBL: Depressores do sistema nervoso central, usados para desinibição sexual.
- Mefedrona (Meth): Mais comum na Europa, atua como um estimulante.
Além dessas, outras substâncias como cocaína, MDMA e poppers também são frequentemente encontradas em encontros de chemsex e PnP.
Estas drogas são referidas como “chems” por seus efeitos desinibidores sexuais.
Quais são os riscos do chemsex à saúde?
Os riscos associados ao chemsex são numerosos e abrangem aspectos físicos, mentais e sociais. Entre eles:
- Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs): A prática pode aumentar a vulnerabilidade ao HIV e hepatite C.
- Infecções bacterianas: Gonorreia e clamídia são comuns em chemsexeurs que não usam preservativos.
- Lesões anais e genitais: O sexo prolongado e agressivo pode causar fissuras anais e hemorroidas.
- Overdose: O uso excessivo de estimulantes como a metanfetamina pode levar a overdoses, manifestando-se em formas como parada cardíaca e crise de saúde mental.
Há ligação entre Chemsex e infecções transmitidas pelo sangue?
O risco de transmissão do HIV é frequentemente o foco das respostas de saúde pública ao chemsex e PnP.
Um estudo de 2020 divulgou que homens queer e pessoas trans que usam metanfetamina persistentemente têm maior risco de contrair o HIV. Essa tendência foi chamada pelos autores de: “a crise sobre a qual não estamos falando.”
A injeção de drogas, chamada de “slamming”, carrega riscos de HIV e HCV se suprimentos como seringas e agulhas forem compartilhados.
No entanto, isso não significa que a infecção por HIV e HCV seja inevitável para aqueles na cena.
Algumas pesquisas de 2018 indicam que os participantes do PnP podem esquecer de tomar a profilaxia pré-exposição (PrEP) — uma medicação projetada para prevenir a transmissão do HIV — enquanto realizam a prática.
No entanto, os pesquisadores de Nova York descobriram que esses participantes não eram mais propensos a esquecer uma dose do que pessoas que não usam drogas.
A cultura do Chemsex
A compreensão da singularidade cultural do chemsex é crucial para uma resposta eficaz de saúde pública. Ignorar esses aspectos pode levar a piores resultados de bem viver para os adeptos dessa prática.
David Stuart, ativista reconhecido como o originador do termo chemsex, explica que essa atividade é mais do que apenas drogas e sexo, sendo profundamente enraizada na cultura queer.
Aplicativos de encontro, a homofobia internalizada e o trauma da crise do HIV são algumas das forças que moldaram essa cultura.
O militante de causas envolvendo a comunidade LGBTQIAPN+ desempenhou um papel crucial no desenvolvimento dos primeiros serviços de chemsex no Reino Unido, oferecendo apoio aos usuários.
Ele liderou parcerias inovadoras com serviços pioneiros, como o Club Drug Clinic, reconhecendo e criando caminhos especializados para homens gays e bissexuais.
Como líder de treinamento, David ajudou inúmeros profissionais de saúde a entender o chemsex, desenvolvendo serviços informados e cuidadosos.
Distúrbios de uso de substâncias (SUDs)
Os distúrbios relacionados ao uso de substâncias (SUDs) podem ser um desafio significativo para os praticantes de chemsex.
Segundo a American Psychiatry Association, os SUDs são caracterizados por:
- Perda de controle sobre o uso da substância;
- Problemas sociais decorrentes do uso;
- Dependência física da substância;
- Uso em cenários de alto risco.
Norman Zinberg, em sua obra clássica “Drug, Set, and Setting”, demonstrou que fatores que influenciam o uso problemático de substâncias vão além da química das drogas, incluindo:
- Psicologia individual, como experiências de trauma.
- Circunstâncias externas, como a falta de moradia.
Garotas de programas, principalmente travestis, que usam metanfetamina e outras drogas em altas taxas, continuam a ser sub-reconhecidas pela saúde pública em relação à sua participação no chemsex e PnP.
Esse envolvimento pode estar relacionada à sobrevivência, especialmente no contexto do trabalho sexual, onde as drogas podem atuar como um mecanismo de enfrentamento.
Refletir sobre seu relacionamento com as substâncias pode ser mais fácil utilizando uma ferramenta de autoavaliação desenvolvida por especialistas australianos, o “Chemsex Care Plan”, de David Stuart.
Estratégias de redução de danos
Para aqueles que optam por participar do chemsex, é essencial adotar medidas de redução de danos:
- Lembre-se de Tomar PrEP: Configure um alarme no celular para tomar a medicação.
- Use Preservativos: Sempre que possível, para prevenir ISTs.
- Consumo Seguro: Utilize suprimentos estéreis e novos para injeção.
- Atenção aos Sinais de Overdose: Conheça os sinais e busque ajuda médica se necessário.
Depoimentos de pessoas que praticam chemsex e de profissionais de saúde podem oferecer insights valiosos sobre as realidades e os desafios enfrentados.
Essas histórias ajudam a humanizar o problema e a promover uma compreensão mais ampla.
Perspectivas da saúde pública
Profissionais de saúde têm enfrentado desafios para abordar o chemsex, necessitando de políticas públicas mais eficazes e programas de apoio especializados. Iniciativas como serviços de consulta dedicados e campanhas de conscientização são cruciais para mitigar os impactos negativos da prática.
Políticas inclusivas e eficazes são necessárias para enfrentar essa questão de maneira abrangente e compassiva.
Adotar uma abordagem culturalmente sensível é vital para reduzir os riscos associados e promover uma vida sexual saudável e segura para todos os envolvidos.
Fontes

Mestranda em Biodiversidade, louca por plantas e toda flora brasileira. Encontro na escrita sobre a Cannabis um caminho de cura para o (re)conhecimento com as potencialidades da terra.
Deixe um comentário