Trazemos nesse conteúdo os conhecimentos científicos e os benefícios terapêuticos ou possíveis malefícios da cannabis no esporte.


A atividade e exercício físico são componentes atuais de um estilo de vida com foco no entretenimento, saúde e bem-estar.

De forma especializada, o treinamento físico tem como objetivo principal a melhora do desempenho físico, com metas bem mais elevadas no esporte de elite (campeonatos mundiais e jogos olímpicos).

O treinamento sobrecarrega fisicamente (e psicologicamente) o corpo da atleta para estimular adaptações importantes para o esporte, superar limites, sempre com risco de lesões. O corpo e a mente sofrem com dores, traumas, estresse e ansiedade, sono pobre, entre outros problemas, que prejudicam a evolução do próprio treinamento e a qualidade de vida e bem-estar dos atletas.

Assim, a prevenção de lesões é o segundo objetivo do treinamento físico. Esta é uma visão simplista de todo um cenário do esporte, mas serve bem para introduzir um novo ator, a Cannabis sativa (maconha), neste universo.

A cannabis possui centenas de substâncias químicas que agem no corpo humano, os fitocanabinóides, que podem ser extraídos da planta. O delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD) são os mais famosos, mais abundantes e os mais estudados.

Mas existem muitos outros como o canabicromeno, canabinol, canabidivarina, tetrahidrocanabivarina, e o canabigerol, este último estamos estudando em nosso grupo. Os animais também produzem canabinóides, como a anandamida e o 2-acilglicerol (2-AG), neste caso chamados de endocanabinoides.

Os canabinoides (fito e endo) se ligam às nossas células através de receptores (CB1 e CB2) que estimulam ou inibem as engrenagens de nosso corpo, como cérebro e músculos. Assim, nós possuímos um sistema endocanabinoide que responde aos fitocanabinóides da natureza e aos endocanabinoides que o nosso corpo produz.

Por exemplo, o THC é conhecido pelos efeitos psicotrópicos na percepção, emoções e comportamento. O CBD não apresenta estes efeitos. Uma longa pedalada aumenta anandamida no sangue e melhora o humor (Heyman et al. 2012).

No esporte profissional, os fitocanabinóides são proibidos pela agência mundial antidopagem (WADA). São exceções o THC até 150 ng/mL na urina (substância limiar), e o CBD que saiu da lista proibida da WADA em 2018.

Este status proibitivo da maconha está sendo revisto pela WADA, vamos aguardar a nova lista proibida de 2023, atualizada anualmente. A liberação do CBD pela WADA e o conhecimento crescente dos benefícios terapêuticos da cannabis medicinal despertou atenção do mundo do esporte.

Um grande estudo demonstrou que 23% de 46.000 atletas de diferentes idades e modalidades desportivas era usuária de alguma forma de cannabis (Docter et al. 2020). A experiência pessoal de atletas com canabinoides é destaque nas mídias eletrônicas e redes sociais com autorrelatos de recuperação muscular, alívio da dor e inflamação, melhora do sono, diminuição do estresse, entre outros.

Este conhecimento empírico apoiado nas experiências vividas pelos atletas apoia-se nas evidências terapêuticas de estudos clínicos com a cannabis e canabinoides, para pacientes com doenças como fibromialgia ou doença de Parkinson, em tratamento clínico ou hospitalar.

Cannabis no esporte – o (pouco) conhecimento atual

Ainda existem muitas perguntas não respondidos para o uso da cannabis e canabinoides no esporte. Para atletas, precisamos sempre conhecer três situações fisiológicas distintas dos pacientes com doenças – como o corpo está funcionando (1) em repouso, (2) durante o exercício, e após o exercício, uma fase conhecida como (3) recuperação.

Por exemplo, o exercício modifica os sinais vitais – o coração e respiração aceleram, a temperatura corporal e pressão arterial aumentam. Tenho um curso online para os interessados .

Atletas de esportes de alta intensidade e contato físico ainda sentem dores e desconfortos. Estes sinais vitais, dores e desconfortos demoram algum tempo durante a recuperação (rápida e lenta) até voltar normal, e uma boa recuperação é essencial para um treinamento físico de sucesso.

Esta é uma área das ciências do esporte conhecida como fisiologia do exercício, o foco do laboratório (Laboratório de Biologia do Exercício – Labioex) que coordeno na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e de nossa jovem StartUp Cannabisports.

O treinamento diminui o estresse físico e mental do exercício, aumenta a capacidade física, e pode até causar sensação de prazer e bem-estar. A quantidade dos endocanabinoides anandamida e 2-AG aumenta durante o exercício prolongado (exercício aeróbico), como corrida e ciclismo, em pessoas bem treinadas e causa uma sensação de euforia chamada runner’s high (Heyman et al. 2012; Bristot et al. 2022).

Pura especulação de minha parte, considero que o aumento destes endocanabinoides pelo exercício tem os mesmos objetivos do uso do CBD – ajudar na recuperação física e mental do exercício.

O corpo e metabolismo do ser humano evoluiu durante milhares de anos para a caminhar e correr, originalmente para coletar comida e caçar animais, entendo como perfeitamente natural que nosso sistema endocanabinoide também ajude na recuperação da atividade física.

Mas os efeitos dos canabinoides ainda são poucos conhecidos no corpo em exercício e durante recuperação. Vamos focar na cannabis e nos fitocanabinoides mais conhecidos pelo esporte – THC e CBD. O uso recreacional da cannabis por atletas parece ser seguro, vários estudos não encontraram prejuízos nos principais marcadores de desempenho físico (potência aeróbica e anaeróbica), pressão arterial, força muscular, e sensação de cansaço em repouso (Lisano et al. 2019a; Lisano et al. 2019b).

Mas durante o exercício, a cannabis e THC perturbam a respiração (menos importante) (Maksud and Baron 1980) e o coração (com importante aceleração dos batimentos) (Jones 2002) num efeito chamado ergolítico, ou seja, que prejudica o desempenho. O próprio exercício aumenta as concentrações sanguíneas do THC armazenado na gordura corporal (Wong et al. 2013).

Pessoas com problemas cardíacos devem atentar-se aos estes efeitos cardíacos do THC durante o exercício (Lisano et al. 2019a). Não existe conhecimento sobre a recuperação do exercício.

O sono recuperador (de recuperação) é um componente integral do treinamento. As adaptações do treinamento ocorrem principalmente durante o sono, então o atleta precisa dormir bem.

Mas profissionais queixam-se de sono pobre em quantidade (tempo) e qualidades (tempo para dormir, sono leve e pesado) insuficientes durante períodos de treinamento, viagens e competições. O estresse psicológico e ansiedade ainda pioram este cenário.

O CBD melhora o sono em pacientes como doença de Parkinson (40-160 mg) (Chagas et al. 2014) e outras desordens neuropsiquiátricas (Shannon et al. 2019), embora os resultados flutuem com o tempo. Existem dois trabalhos sobre o papel do CBD no sono de atletas.

A melhora do sono em ansiedade com CBD foi reportada por atletas de rugby (Kasper et al. 2020), mas não em atletas de endurance (Sahinovic et al. 2022). Os outros trabalhos científicos são revisões de literatura que extrapolam resultados obtidos em estudos clínicos.

Outra realidade dura enfrentada pelos atletas são as lesões musculares, desde rupturas musculares até dor muscular tardia. Isto faz parte do cotidiano dos atletas. A dor após aumento da sobrecarga é uma resposta até mesmo fisiológica e esperada. Os anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs) e opioides (principalmente no exterior) são utilizados no alívio da dor dos atletas, mas o uso crônico está associado à muitos efeitos colaterais.

O CBD alivia a dor e inflamação em roedores (Lodzki et al. 2003; Costa et al. 2007), mas novamente são poucas evidências no exercício e esporte. Um estudo mostrou que 34% de 517 atletas de elite de rugby, um esporte de muito vigor e contato físico, usam/usaram CBD (400-3.000 mg) para alívio da dor (14% sucesso) e melhora do sono (41% sucesso) (Kasper et al. 2020).

Vejam a grande diferença nas doses utilizadas de CBD (400-3.000 mg), talvez porque a indicação do CBD para dor e inflamação precise de doses mais altas (500 mg). Quanto à lesão muscular, o CBD não modificou o perfil de lesão típico após 48h treino de força (60-150 mg) (Cochrane-Snyman et al. 2021; Isenmann et al. 2021), mas melhorou este perfil após 72 horas do treino (150 mg) (Isenmann et al. 2021).

Este resultado indicam timidamente uma recuperação muscular mais rápida com CBD, mas sem melhora da dor muscular no dia seguinte (Sahinovic et al. 2022).

Os canabinoides não são livres de riscos no esporte

Uma informação ignorada até o momento é a segurança do uso pelos atletas. O uso inadequado da cannabis e canabinoides podem ser prejudiciais à saúde do atleta, uma das características para classificar um agente como dopante pela WADA.

A ANVISA informa para todos os produtos CBD autorizados que não existem estudos de eficácia e segurança, que existem incertezas no tratamento de longo prazo, e interação importante com outros medicamentos.

Estes produtos foram autorizados para uso clínicos em doenças, tanto que deve ser firmado um termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) junto ao médico.

Qualquer substância química dentro do nosso corpo causa efeitos colaterais, dependendo da (1) limpeza pelo corpo, (2) interação com outras substâncias químicas, e (3) quantidade (dose). (1) Os fitocanabinoides são removidos/limpos do corpo pelo fígado, através dos mesmos processos bioquímicos de outros agentes terapêuticos (exemplo: estatinas) ou nutricionais (exemplo: vitamina D, toranja). (2) Assim, o uso de outras substâncias químicas e alimentos pode desacelerar a limpeza dos fitocanabinoides do corpo.

Durante o exercício, o fluxo de sangue para o fígado diminui (desviado para os músculos em atividade) e pode desacelerar este processo de limpeza.

Atletas com grande índice de massa corporal como arremessadores e levantadores de peso ainda podem ter diminuição da remoção/limpeza dos fitocanabinoides pelo fígado. (3) As evidências disponibilizadas para a comunidade acadêmica e desportiva até aqui apresentam uma variação muito grande nas doses.

Os efeitos colaterais e toxidade do CBD (Huestis et al. 2019; Chesney et al. 2020) são desconhecidos nos atletas.

Estudos de CBD em pacientes com epilepsia e distúrbios psiquiátricos relataram interações medicamentosas induzidas por CBD, anormalidades no fígado (quem faz a limpeza), diarreia (importante), cansaço, vômito e sonolência (Huestis et al. 2019).

Estes efeitos colaterais precisam ser monitorados nos atletas. Por favor, se você é atleta, responda este questionário anônimo sobre uso de canabinoides e efeitos colaterais para iniciarmos este monitoramento.

O conhecimento é em si mesmo um poder (Francis Bacon)

Existe pouco conhecimento científico sobre uso da cannabis e canabinoides nos esportes para (1) segurança, (2) objetivos do treinamento desportivo, e (3) decisões estratégicas e planejamento anual (campeonatos mundiais) e quadrienal (jogos olímpicos).

Os poucos estudos citados anteriormente apoiam timidamente o uso do CBD para melhora do sono e ansiedade, recuperação muscular, e alívio da dor em atletas masculinos. Desconhece-se mais do que se sabe.

O CBD precisa ser mais bem estudado. Não existe nenhuma evidência para as mulheres no esporte. Não existem estudos para outros fitocanabinoides. Nenhum estudo clínico avaliará os efeitos da cannabis e canabinoides na temporada, treinamento, dieta, e modalidade desportiva.

Minha recomendação é a construção de uma agenda com atletas, cientistas e indústria para avançar neste conhecimento no Brasil. Nós do Labioex e Sporscannabis estamos desenvolvendo dois estudos com fitocanabinóides com objetivos específicos para o treinamento físico, estamos abertos para parceiros e discussões na área.

Concluindo

Primeiro, prudência no uso da cannabis e canabinoides para qualquer um, atleta ou paciente.

Existem riscos à saúde que também podem prejudicar o próprio desempenho no esporte, aprendemos que isto é um efeito ergolítico. Segundo, o uso deve ser acompanhado por um médico, felizmente a comunidade médica nesta área está crescendo no Brasil.

Recomendo exames regulares para saúde do fígado, como avaliação de enzimas hepáticas. Terceiro, os fundamentos do uso da cannabis e canabinoides no esporte precisam ser fortalecidos, vários grupos de pesquisa espalhados pelo mundo estão dedicados a isto, inclusive no Brasil.

Esta ciência precisa do apoio do esporte a da indústria para avançarmos de modo eficaz (desempenho) e seguro (saúde).

Estas são as referências completas dos estudos citados no texto.

Bristot V, Poletto G, Pereira DMR, Hauck M, Schneider IJC, Aderbal S. Aguiar J (2022) The effects of exercise on circulating endocannabinoid levels—a protocol for a systematic review and meta-analysis. Syst Rev 11(1). https://doi.org/10.1186/S13643-022-01980-X

Chagas MHN, Eckeli AL, Zuardi AW, Pena-Pereira MA, Sobreira-Neto MA, Sobreira ET, Camilo MR, Bergamaschi MM, Schenck CH, Hallak JEC, Tumas V, Crippa JAS (2014) Cannabidiol can improve complex sleep-related behaviours associated with rapid eye movement sleep behaviour disorder in Parkinson’s disease patients: a case series. J Clin Pharm Ther 39(5):564–566. https://doi.org/10.1111/JCPT.12179

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