Dias das Mãeconheiras

dia das mãeconheiras

Há pelo menos uma década que as Mãeconheiras estão dando as caras e dando a letra nas redes sociais. Mas, quem são essas mãeconheiras? O que elas fazem? Como elas vivem? O que elas dizem? O que elas querem? Do que elas precisam? É um movimento? Um fenômeno? Uma comunidade? A seguir vamos apresentar algumas Mãeconheiras e através delas poderemos elaborar algumas respostas para tantas questões. 

As precursoras 2015, Facebook

Em 2015, a escritora Maíra Castanheiro começou seu blog no facebook: Diário de Uma Mãeconheira. O nome era para ser só uma brincadeira e acabou virando bandeira. Conforme o blog foi ganhando visibilidade, atraindo diversas mães que se identificavam com as histórias de Maíra, a autora viu sua escrita ganhando uma enorme potência política.

De lá pra cá, Maíra Castanheiro tem enfrentado poucas e boas por conta do seu polêmico Diário de uma Mãeconheira. Ela perdeu trabalhos como professora, perdeu a guarda da filha e foi uma longa batalha para se recuperar. Mas, ganhou nome e espaço como escritora. 

Atualmente Maíra Castanheiro vive com sua filha e trabalha como escritora. Em 2021 os textos do Diário de uma Mãeconheira foram publicados em um livro pela editora Moluscomix. O livro, são crônicas e revelam o cotidiano de uma mãe, mulher, usuária de drogas e escritora. A autora nos avisa que restam os últimos exemplares do livro e não vai ter reimpressão. Todavia, a autora está prestes a lançar seu terceiro livro, desta vez um livro de ensaio sobre maternidade e drogas, intitulado Tornar-se Mãeconheira pela Editora Urutau. 

Em 2017, no instagram, @maeconheira sem cara e com coragem começou apresentar suas experiências de jardinagem canábica. A jardineira, mãe de dois adolescentes, carioca, negra periférica, nunca revelou seu rosto, nome e profissão. Sabemos que ela vive em algum lugar da França, e desde 2017 compartilha com mais de 100 mil seguidores seu diário de cultivo. Hoje, @maeconheira é uma grande referência na comunidade canábica.

Coletivos de Mãeconheiras

Aos poucos, têm surgido nas redes sociais coletivos de mãeconheiras: mães usuárias de cannabis que se unem para dialogar sobre maternidade e cannabis e principalmente, sobre o lugar da mãeconheira. 

Coletivo Segurando as Pontas: mãeconheiras e antiproibicionistas

Desde 2022, o Coletivo Segurando As Pontas atua fazendo acolhimento terapêutico, médico e pedagógico. As profissionais são mãeconheiras e antiproibicionistas e atendem exclusivamente as mãeconheiras. O coletivo oferece grupo terapêutico gratuito online e sua comunidade vem cres-sendo e se fortalecendo cada vez mais. 

Clube das Mãeconheiras

Em 2023, surgiu o Clube das Mãeconheiras com a proposta de criar conteúdos sobre Maternidade e Drogas. Percebendo a carência de encontrar informações, estudos, pesquisas, artigos, sobre este universo, que o Clube das Mãeconheiras resolveu preencher essa lacuna e disponibiliza na sua plataforma, textos sobre o uso da maconha durante a gravidez e a amamentação, sobre casos de mãeconheiras que perderam a guarda dos seus filhos, sobre casos de mãeconheiras que cultivam a cannabis para extrair seu próprio remédio e etc., ou seja, o Clube das Mãeconheiras aborda diversos temas ligados à Maternidade e Drogas.

As cultivadoras

Elas são mães de gente e de plantas também! Mesmo diante do nosso cenário proibicionista, podemos notar um maior número de mãeconheiras compartilhando suas práticas de jardinagem canábica nas redes sociais. O intuito não é bem jardinagem canábica, mas sim, de CULTIVAR A PRÓPRIA CURA.

Essas mães cultivam a cannabis para extrair da planta o remédio seja para tratar a si mesma ou aos seus filhos. Algumas têm habeas corpus outras não e praticam a desobediência civil pacífica. 

Nas redes sociais, elas compartilham suas jornadas de cultivo e cura com a planta, e acreditam que através de suas experiências, podem desmistificar os estigmas e preconceitos e conscientizar  sobre a importância da legalização da planta. 

Cultivando a própria Cura

A mãeconheira Umino Lua, se apresenta em suas redes sociais como paciente medicinal e jardineira de sua própria cura. Umino, compartilha suas experiências de jardinagem canábica e os benefícios da planta para tratar de sua saúde mental. Ela tem acompanhamento médico e psiquiátrico e faz o uso da cannabis sob supervisão e com receita. Umino nos conta que o ato de plantar, colher e extrair seu próprio remédio, também faz parte da cura, ou seja, a cura não está só no remédio mas também no processo. 

Outro perfil no instagram de Maeconheiras que destacamos é a @maeconheiras, perfil da Tetê Gondolfi que desde 2019 se apresenta como @maeconheiras. Tetê, tem uma filha com paralisia cerebral e usa a cannabis para tratar sua epilepsia refratária. Ela conseguiu o Habeas Corpus para cultivar cannabis e produzir o remédio para sua filha. Consequentemente, Tetê desenvolveu muito bem as técnicas de jardinagem canábica e é bicampeã da Copa Grower.

A mãeconha Liane Pereira também merece destaque. Mãe da Carol, ela foi a primeira pessoa a conquistar seu Habeas Corpus no Rio Grande do Sul para ter o direito de cultivar a cannabis e usar a planta para tratar de uma doença rara da sua filha. Liane, porém, não se contentou em apenas cuidar da sua filha e tomou para si a missão de lutar pela legalização da maconha. Sua história é inspiração e quebra vários tabus sobre a planta. 

Mãeconheiras artistas e ativistas

Ser mãe é um ato político e revolucionário. Ser mãeconheira é ser necessariamente ativista. Toda mãe é uma artista e sua maior criação é a sua criança. Toda mãe é uma ativista e sua maior ação é criar. As mãeconheiras artistas e ativistas estão na pista. São correria e não perdem a rima. Unem verbo e verso num mesmo ato. Elas fazem seu palco e oferecem suas poesias para suas plateias.

Jaqueline, poeta, atriz, ativista canábica e hempreendedora, há quase uma década vem pautando sobre o complexo universo das mãeconheiras. Nas redes sociais ela se apresenta como @maelegalize e é reconhecida como uma importante ativista feminista antiproibicionista. Jaqueline usa suas redes sociais para trazer temas como maternidade, mãe solo, redes de apoio, legalização da maconha, guerra às drogas. Ademais, ela compartilha como vive sua maternidade e oferece suas poesias e performance para o seu público que a acompanha há alguns anos. 

Outra mãeconheira que traz sempre suas rimas, versos e poesias para redes sociais é Flor Mc. Mãe do Maré, compositora, cantora, arte-educadora e desde 2018 ministra oficinas de Hip-hop. A mina ainda mantém um canal de culinária canábica no Youtube: Cheiro Verde. Cada episódio contém uma receita nova e convidados para um bate papo legal.

Nem tudo são flores para as mãeconheiras…

Mas, não é nada fácil bancar ser mãeconheira. Se assumir como mãeconheira na nossa sociedade antiproibicionista, traz consequências, como vimos mais acima, no caso da escritora Maíra Castanheiro que perdeu a guarda da filha por conta dos textos do Diário de uma Mãeconheira

Conhecemos também o caso de Lauryane Leão, a primeira mulher a fazer sopro de vidro no Brasil. Ela também perdeu a guarda da sua filha apenas por postar conteúdo canábico nas suas redes sociais. Lauryane enfrentou a justiça e o pai de sua filha, teve um gasto financeiro de mais de sete mil reais com advogados, além do desgaste emocional e mental. Atualmente, Lauryane compartilha a guarda da filha com o pai e segue trabalhando como artesã produzindo as piteiras de vidro mais lindas desse Brasil. 

As mães, mãesconhas, mãeconheiras, são as maiores protagonistas na luta pela legalização da maconha, pelo fim da guerra às drogas, pelo direito do autocultivo, pelo uso medicinal da maconha. Elas são muitas e atuam em diversas frentes. São elas que trouxeram o debate do uso medicinal da maconha para o congresso, são elas que perdem os filhos na guerra às drogas, são elas que perdem a guarda dos filhos apenas por serem usuárias e criadoras de conteúdos canábicos. Enquanto vivermos numa sociedade proibicionista, as mães e as crianças, serão as maiores vítimas. 

Neste dia das mães, consideramos justo destacarmos as mãeconheiras que há muito vem plantando sementes cuja flores toda a sociedade colhe. Ser mãe é um ato político e revolucionário. Ser mãeconheira é um ato político e revolucionário. Toda mãeconheira precisa de espaço para plantar. De tempo para germinar. De cuidado para flore-ser. De mãos para colher.

Mãeconheiras de todo o mundo: uni-vas!