A Ibogaína é uma substância com alta concentração de alcalóides psicoativos, que agem no sistema nervoso central.
Nos últimos anos, a substância vem ganhando atenção devido ao seu potencial terapêutico, principalmente para pessoas que são dependentes químicas e que desejam se livrar do uso de drogas.
Quando se trata do vício em substâncias, há muitos tratamentos convencionais, inclusive as internações em clínicas de recuperação.
No entanto, nem sempre os resultados desses tratamentos são satisfatórios. Em grande parte, porque não resolvem a questão da abstinência e muitas pessoas voltam a usar drogas depois do tratamento.
A quantidade de pessoas usuárias de drogas é um grave problema de saúde pública e a forma como os governos lidam com essa questão deixa muito a desejar.
Além disso, cada vez mais aumentam os espaços públicos que grupos marginalizados e excluídos da sociedade ocupam nas cidades, assim como as formas de violência que são submetidos.
É nesse contexto que a Ibogaína se apresenta, amparada pela ciência, como uma promessa sólida e segura de recuperação da dependência química.
Pensando nisso, o objetivo desse artigo é explicar o que é a ibogaína, como ela atua no corpo e, principalmente, quais são os benefícios e efeitos colaterais no tratamento de dependência química.
Origem da Ibogaína
Encontra-se o princípio ativo Ibogaína na casca da raiz de uma planta, a Iboga (Tabernanthe iboga), que tem origem na África, na região do Gabão e Camarões.
Entre as tribos que viviam e vivem nesses territórios, é comum o uso ritualístico da Ibogaína para marcar a passagem da adolescência para a vida adulta.
É, portanto, uma substância de uso ancestral que vem atravessando gerações ao longo de milênios.
“Seu uso ancestral é remetido aos pigmeus em aldeias na floresta da região equatorial oeste da África, onde é entendido como um caminho para conhecer os mistérios da floresta. Diversas etnias aprenderam o uso da iboga e a aproximaram de seus outros cultos. Existem tradições de cultos femininos, como os Mbieri, cultos de veneração aos antepassados e com incorporação de entidades”, trecho retirado da tese escrita por Bruno Ramos Gomes, psicólogo, pesquisador da Ibogaína e doutor em saúde coletiva pela Unicamp.
Além dos ritos originais, estes povos utilizavam a Iboga como uma forma de resistência à invasão colonial dos franceses nesta região.
Isso porque, a partir do sincretismo religioso, eles combinavam o uso da Iboga com o cristianismo, que lhes era imposto durante o período de colonização da África.
Através de doses menores da raiz da planta, por conta do efeito psicoestimulante, excitante e anestésico na boca e na língua, esses grupos conseguiam minimizar a sensação de cansaço e de sede, durante o regime de trabalho escravo.
“Por mais que o primeiro relato sobre o uso nativo de iboga tenha sido feito em 1819, em descrições sobre a região que hoje é o Gabão, inicialmente se sabia apenas de seu uso estimulante em pequenas doses. Viajantes franceses relataram que trabalhadores em regime de trabalho escravo carregavam pequenas porções de casca de iboga consigo para aguentar as extenuantes rotinas (EKOMIE OBAME, 2014), o que a fez ser descrita, em 1889, como estimulante e afrodisíaco, sob o nome de Tabernanthe iboga (POPIK; LAYER; SKOLNICK, 1995)”, trecho extraída da tese “O uso da ibogaína no manejo da dependência de drogas no Brasil : um estudo qualitativo de seguimento por um ano”, escrita por Bruno Gomes.
Como atua a Ibogaína no corpo humano
“Os mecanismos de ação da ibogaína ainda não estão claramente compreendidos (WASKO; WITT-ENDERBY; SURRATT, 2018), mas parecem envolver os sistemas de neurotransmissores serotoninérgico, colinérgico, opioide e glutamatérgico”, trecho extraído da tese do
Quimicamente, a ibogaína se classifica como uma triptamina, análoga à melatonina, estruturalmente semelhante à harmalina e age principalmente nos receptores NMDA (N-metil-D-aspartato), opioides e serotoninérgicos.
O que contribui para sua capacidade de alterar estados mentais e reduzir comportamentos adictivos. Sua ação no sistema glutamatérgico também é relevante para o tratamento de transtornos relacionados ao estresse.
Segundo estudos, a ibogaína produz as neuroquímicas necessárias para a remoção da compulsão, pois ela aumenta a produção do hormônio chamado GDNF (Glial cel line-derived neurotrophic) que estimula a produção de novos neurotransmissores.
Isso produz reajustes dos níveis químicos, de modo que a compulsão e a fissura deixam de existir no organismo. Por isso, muitas pessoas usam para tratamento de dependência química.
“Aparentemente a Ibogaína age em duas frentes, a primeira é a experiência da expansão de consciência com lembranças da infância, do passado e de momentos traumáticos, por isso consideramos a Ibogaína um facilitador da psicoterapia. Mas tem um outro fator que é muito importante, pois ela aumenta a produção de um hormônio que é o GDNF, que é um fator de crescimento neuronal. Isso estimula a formação de novas sinapses e a sua restauração. Isso permite ao cérebro entrar num estado de funcionamento mais próximo do ideal, o que gera uma reação de bem estar que se mantém sustentado por anos depois do uso”, revela o médico e terapeuta Dr Bruno Rasmussem, especializado em tratamento para dependência química durante entrevista no PodCast Sacadas da anestesia.
Pesquisas no tratamento para dependência química
Curiosamente, quem descobriu o potencial terapêutico da Ibogaína para tratamento de dependência química foi um usuário de heroína, Howard Lotsof.
Ele fazia parte do grupo dos psiconautas, pessoas que até hoje testam substâncias que alteram o estado de consciência.
Ao ficar sabendo da Ibogaína, que é uma substância psicodélica, ele decidiu experimentar uma dose e percebeu que a fissura pelo uso da heroína deixou de existir.
“Depois de quase 24 horas profundamente alterado e tendo intensas visões, Lotsof ficou surpreso ao perceber que não estava com qualquer sintoma de abstinência de heroína. De sete amigos dependentes de heroína, cinco ficaram pelo menos seis meses sem usar heroína (RAVALEC, 2007). Percebendo tal efeito, Lotsof se tornou um divulgador e ativista pelo tratamento com ibogaína. A partir dos tratamentos e experiências que seguiu fazendo, postulou a dose a ser usada para tratar dependência entre 15 a 25 mg/Kg (ALPER; BEAL; KAPLAN, 2001)”, trecho extraído da tese de doutorado do psicólogo Bruno Gomes.
O que explica esse efeito da Ibogaína em diminuir a compulsão pelo uso de drogas é justamente o fato dela aumentar a sensação de bem-estar por conta das reformulação das sinapses neurais.
“A Ibogaína devolve ao cérebro a arquitetura idêntica ao que o usuário estava na véspera de fazer o primeiro uso. A pessoa quando faz o uso da droga pela primeira vez não o faz pela fissura, mas sim por curiosidade, por pressão social, como fuga e depois não consegue abandonar a frequência do uso. Com a Ibogaína o paciente tem de volta o poder da escolha, pois ele deixa de ser obrigado a fazer o uso, como era anteriormente quando o usuário se encontra preso na dependência, mesmo sabendo que não faz bem pra ele”, explica Dr Bruno Rasmussen.
Principais efeitos da Ibogaína, segundo pesquisas publicadas no Brasil
Nesse contexto, as evidências científicas mostram que os principais efeitos da Ibogaína são:
- Redução dos sintomas de abstinência: A ibogaína é conhecida por atenuar os sintomas de abstinência associados ao uso de opioides, como heroína e metadona.
- Reestruturação de padrões de comportamento: Pesquisas sugerem que a ibogaína promove uma “reinicialização” do sistema dopaminérgico, ajudando a interromper ciclos de compulsão e dependência. Esse mecanismo também tem sido explorado em casos de depressão e transtornos de ansiedade.
- Tratamento de depressão resistente: Embora menos estudada nesse contexto, a ibogaína tem mostrado resultados promissores em pacientes com depressão resistente a tratamentos convencionais. Estudos em modelos animais e relatos clínicos sugerem que a substância pode modular os sistemas glutamatérgico e serotoninérgico, ambos implicados em transtornos depressivos.
Essas são as pesquisas sobre os efeitos da ibogaína publicadas no Brasil:
- “Tratando a dependência das drogas com Ibogaína: Um estudo retrospectivo”, publicada em 2014 pelo Journal of Psychopharmacology.
- “Tratando a dependência das drogas com Ibogaína: Um estudo qualitativo”, publicada em 2016 no Journal of Psychedelic Studies.
- “O Uso da ibogaína no manejo da dependência de drogas no Brasil : um estudo qualitativo de seguimento por um ano”, publicada no Repositório da produção científica e intelectual da Unicamp.
O tratamento com ibogaína no Brasil
Foi através de uma pesquisa brasileira da UNIFESP (com experimentos clínicos entre 2005 e 2013), que o médico Bruno Rasmussen, o neurocientista Eduardo Schenberg, a psicóloga Maria Angélica Comis e o psiquiatra Dartiu Xavier, concluíram que a ibogaína pode interromper a dependência de cocaína, crack e outras formas de vício em 72%.
Porém, foi na década de 60, quando pesquisas com psicodélicos para tratamento de saúde mental estavam em franca ascensão, principalmente nos EUA, que a Ibogaína ganhou espaço como alternativa de tratamento de dependentes químicos.
“Na costa oeste americana, estava nascendo também uma cena de terapia com psicodélicos, em que terapeutas como Leo Zeff desenvolviam terapias com substâncias psicodélicas como LSD e psilocibina, usando-as como ferramentas em processos psicoterapêuticos. Em meados dos anos 1960, Lotsof apresentou a eles a ibogaína, que passou a ser usada também”, trecho extraído da tese de doutorado do psicólogo doutor Bruno Gomes.
Nos anos 70 os EUA colocou a Ibogaína na lista 1 de substâncias proibidas e as possibilidades de pesquisa e tratamento foram interrompidas.
No Brasil, ao contrário, a substância nunca foi proibida. Ainda que o uso para tratamento de dependência não seja regulamentado, ele é permitido.
“Apesar de não haver qualquer regulamentação ou registro na ANVISA, o uso é possível no país a partir da Resolução RDC 28/2008 da agência reguladora (ANVISA, 2008), que define critérios para importação por pessoa física de medicamentos não aprovados no Brasil, mas produzidos já em outro país. Esta resolução permite a importação para uso próprio quando feita pelo próprio paciente, em quantidade e frequência compatível com a duração e finalidade de tratamento, de forma que não se configure comércio ou prestação de serviços a terceiros. Esta portaria permite que o médico receite o medicamento e que este seja importado pelo paciente, mas proíbe a propaganda do tratamento, a divulgação de qualquer efeito de cura e o comércio no país”, trecho extraído da tese do psicólogo Bruno Gomes.
Como é o tratamento com ibogaína e quais são os efeitos colaterais
Um dos locais que mais realiza esse tratamento no Brasil e de forma individual no mundo, é o Hospital da Santa Casa na cidade Ourinhos-SP, sob a coordenação do médico Dr Bruno Rasmussem, seguindo todos os protocolos clínicos necessários de cuidado com o paciente, como anamnese, dosagem e realização de exames prévios.
Apesar do hospital ser atendido pelo SUS, o tratamento é particular. A Santa Casa apenas disponibiliza o espaço. O valor pode chegar a 10 mil reais por sessão, incluindo a importação da substância, a internação e os profissionais. Na maioria dos casos, uma sessão já é o suficiente para atingir os efeitos.
O paciente segue internado por um dia em uma sala de atendimento e fica assistido por uma equipe de médicos, enfermeiros, psicólogos e terapeutas durante toda a jornada de uso.
Afinal de contas, os efeitos colaterais que o processo desencadeia, podem necessitar de suporte.
Entre os efeitos colaterais mais comuns estão: sensação de enjoo, visão turva, euforia, pensamento acelerado, alguns tremores pelo corpo e arritmia cardíaca.
Em alguns casos, a arritmia pode levar à morte, pois existem relatos na literatura clínica sobre a Ibogaína.
“Já houveram óbitos com Ibogaína, mas sempre nas mesmas condições. Não sabemos ao certo a procedência da substância ou se era mesmo Ibogaína e se a pessoa teve suporte ao usar a substância. É fato que encarar o tratamento com a Ibogaína como um procedimento médico, com a realização de exames prévios, acompanhamento médico, ambiente protegido e substância de qualidade é bastante seguro. O grande diferencial é o preparo do paciente, com sessões de terapia e avaliação médico clínica”, garante Dr Bruno Rasmussen.
As fases durante o tratamento
Os efeitos da substância começam a aparecer cerca de uma hora depois da ingestão. O paciente passa então pela primeira fase, de sintomas inespecíficos.
Nessa etapa, ele identifica que algo diferente está acontecendo, como mudança de cor no ambiente, alguns barulhos e sensações pelo corpo.
Logo depois, vem a fase de inundações de pensamentos, em que o curso dos pensamentos acelera a ponto de não conseguir identificar com clareza o que são.
No entanto, ele percebe que se tratam de memórias da infância seguidas de imagens, como uma espécie de memória remota
“A vivência de quem faz o uso da Ibogaína é que a pessoa revê o filme da vida dela com muita nitidez de detalhes”, confirma o psiquiatra Dr Dartiu Xavier.
A terceira fase é de perguntas e respostas, em que o paciente fica lembrando das memórias que ele resgatou na segunda e começa a questionar alguns episódios, o que desencadeia uma série de insights que melhoram a consciência de vida do paciente em vários aspectos para além das drogas.
“A Ibogaína não é necessariamente um alucinógeno, apesar da pessoas tomar a substância é ver coisas, nós empregamos o conceito do psiquiatra chileno da década de 60, Claudio Naranjo, que classifica a Ibogaína como um oniro frênico, onde o paciente entra no estado de sonhar acordado. Além disso, ela não tem tanta afinidade com o receptor 5HT2A, como os outros psicodélicos, que é receptor que induz as alucinações. Inclusive o eletrocardiograma de quem fez uso da Ibogaína é muito semelhante ao sono REM, por isso essa semelhança com sonho”, explica Dr Bruno Rasmussen.
Para além da dependência química como crack, álcool, cocaína e outros opióides, a susbtância se mostrou eficiente também em diferentes tipos de vício, como jogos e pornografia, justamente pelo reset cerebral que provoca.
“A Ibogaína tem o efeito de cortar a fissura, a abstinência e a compulsão de um dia para o outro e faz isso de forma muito duradoura, ou seja, ajuda a pessoa pode vir a ficar uma janela grande de bem estar sem recaída”, pontua o Dr. Bruno Gomes.
O futuro da ibogaína na saúde mental
A ibogaína representa uma fronteira promissora na medicina psicodélica e na saúde mental. Com regulamentações apropriadas e avanços em pesquisas, essa substância pode se tornar uma opção valiosa para pacientes que enfrentam desafios com tratamentos convencionais.
Inclusive, o fornecimento no SUS faria com que o tratamento pudesse chegar ao maior número de pessoas, entre elas, aquelas em situação de vulnerabilidade social.
A continuidade das pesquisas científicas é essencial para esclarecer seus mecanismos de ação e validar sua segurança e eficácia em contextos clínicos.
Iniciativas multidisciplinares que integrem neurociências, psiquiatria e farmacologia podem abrir caminho para tratamentos mais eficazes e acessíveis.
“Os tratamentos com ibogaína poderiam ser integrados às redes de cuidado em saúde, seja nas redes comunitárias ou no SUS, de formas muito diferentes. Ainda não existem propostas de qual seria a melhor forma de regulamentar seu uso. É possível chegar a formas de regulamentação que reduzam os riscos envolvidos nesta prática de cuidado, e que ao mesmo tempo potencializem possíveis benefícios. No contexto atual, em que temos o uso problemático de álcool e drogas como um problema que atinge parte importante da população brasileira, e que os tratamentos oferecidos são pouco eficazes, tanto pelo SUS quanto pelas instituições de saúde privadas, a ibogaína tem um grande potencial de impactar positivamente este cenário”. conclui Bruno Gomes.

Formada em jornalismo há quase 20 anos, Thais já passou pelas editorias de meio ambiente, turismo, cultura e gastronomia trabalhando por 17 anos na Chapada Diamantina onde deu aulas de comunicação e publicou três livros pelo Senac. Nos últimos cinco anos vem se dedicando exclusivamente a assuntos relacionados à política de drogas, à terapia cannabica, e psicodélicos, produzindo conteúdo para diferentes portais de notícias do gênero.
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