Esse artigo começa com uma história, assim como muitos, mas essa é uma experiência particular com a ilustre figura que vamos apresentar do mundo canábico. Há cinco anos, quando era uma jovem garota maconheira, um dos primeiros documentários que assisti sobre maconha — e que mudou a minha vida para sempre — foi um dos episódios da série Explain (Explicando), da Vox Company, que conta, de forma lúdica e muito informativa, toda a história da cannabis que conhecemos hoje em dia. Dentre os personagens que auxiliam no desenrolar da história, um neurocientista, muito estiloso e calmo, verbaliza algo que, de fato, fiquei chocada. O nome dele é Carl L. Hart, PhD e psicólogo que pesquisa os efeitos comportamentais e neuro farmacológicos de drogas psicoativas em seres humanos. No trecho do documentário Weed, Carl afirma que tudo aquilo que conhecemos como “Sativa” ou “Indica” são 100% suspeitas! 

Aqueles 20 minutos viraram um looping e eu juro, assisti esse episódio mais de dez vezes, e ainda volto nele, sempre que preciso fixar uma informação mais detalhada sobre a erva. 

De fato uso a erva de forma recreativa para ficar bem relaxada e amo as strains Indicas, por serem as que mais contém CBD (em tese) fiquei impressionada com essa informação. Hart explica, que ao longo do tempo, devido à proibição em muitos países do consumo da maconha e seu processo de hibridização — que é quando uma espécie de planta é enxertada com outra espécie — não há como afirmar que só porque uma flor de cannabis é “mais verde”, ou tem o cheiro cítrico, ela é mais sativa que outra.  

Claro, em locais onde a indústria canábica já pode operar a todo vapor, não é novidade várias empresas e startups venderem essa verdade em extrações concentradas de ervas que contém só CBD ou THC, mas conhecer uma planta que seja totalmente indica ou sativa, Carl Hart afirma ser impossível. E não há quem discorde. 

O que fez Dr. Carl Hart essa figura notável? Vamos aos títulos!

Ele é o presidente do departamento de psicologia da Universidade de Columbia e professor de psicologia e psiquiatria. Hart é um dos primeiros professores afro-americanos com especialização em ciências em uma instituição Ivy League (excelência) de ensino superior. 

PhD em neurociência pela Universidade de Wyoming

Recebeu seu PhD em neurociência pela Universidade de Wyoming e atualmente trabalha como cientista pesquisador na Divisão de Abuso de Substâncias do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York, estudando os mecanismos comportamentais e neuro farmacológicos dos efeitos relacionados às drogas em seres humanos.

Hart também é membro do Conselho Consultivo Nacional de Abuso de Drogas e membro do conselho da Drug Policy Alliance, e sua pesquisa possui uma ampla variedade de literatura científica focada em dependência, comportamentos de consumo de drogas, autoadministração e os efeitos cognitivos do uso de substâncias ilícitas. 

A pesquisa de Hart se concentra em canabinoides, drogas sintéticas “designer”, opióides e estimulantes como cocaína e metanfetaminas. Ele testemunhou perante o Congresso dos EUA em tribunais estaduais e federais, atuando como testemunha especializada sobre os efeitos de drogas psicoativas. 

Além disso, é ativista ativo em vários comitês e conselhos nacionais e internacionais, dando palestras em todo o país e no mundo. 


Foto: Everett Collection Inc/Alamy

Dia oficial Carl Hart

Em 2016, a cidade de Miami oficialmente proclamou o dia 1 de fevereiro como o Dia do Dr. Carl Hart, em reconhecimento às suas realizações em psicologia, psiquiatria, neurociência e abuso de substâncias. Hart foi nomeado fellow da Div. 28 por suas notáveis contribuições à psicofarmacologia e ao abuso de substâncias.

Entre a ciência e a experiência pessoal do Dr. Carl Hart

Carl Hart, em seu novo e revelador livro “Drug Use for Grown-Ups”, começa com uma afirmação surpreendente: “Estou agora entrando no meu quinto ano como um usuário regular de heroína.” Hart, com 54 anos, é o professor de psicologia e ideia de um uso regular de heroína e alta realização acadêmica não são duas coisas que esperamos ver na mesma história de vida.

O uso responsável de entorpecentes segundo Dr. Carl Hart

Em entrevista ao Jornal The Guardian, Hart afirma, “Eu não tenho um problema com uso de drogas. Nunca tive. Todos os dias, cumpro minhas responsabilidades parentais, pessoais e profissionais. Sou melhor por causa do meu uso de drogas.” 

O que torna o testemunho de Hart particularmente poderoso não é apenas a defesa do consumo de drogas ilícitas, mas o fato de ser escrito por um renomado cientista cuja área de especialização é a neuro psicofarmacologia.

Racismo e Legislação de Drogas

No livro, Hart examina o racismo que sustenta a legislação de drogas nos EUA, que levou a um sistema que pune desproporcionalmente os usuários de drogas negros. Ele também aborda a questão da retirada da heroína, questionando por que as pessoas falam tanto sobre ela quando, apesar de seu próprio uso e pausas ocasionais, ele nunca experimentou nada parecido com as histórias de horror descritas.

Em um cenário extremamente racista, os afro-americanos continuam a ser muito mais propensos a serem encarcerados por crimes relacionados com drogas do que os americanos brancos, em uma média de quatro vezes mais probabilidades de serem presos por posse de maconha. No Reino Unido, por exemplo, embora a desigualdade não seja tão extrema, ainda existe preconceito racial nas sentenças.

Se a gente for citar o Brasil ficaremos aqui para sempre!

Drogas e liberdade civil

Hart acredita que, assim como o direito de portar armas, o uso de drogas é uma questão de liberdade civil. Ele argumenta que nem o porte de armas, nem o uso de drogas são prejudiciais se feitos de forma responsável. O problema, em ambos os casos, é o uso irresponsável.

Por que todas as drogas, inclusive a Heroína, devem ser legalizadas segundo Dr. Carl Hart?

A Guerra às Drogas é um fracasso colossal. Como o neurocientista e professor da Universidade de Columbia, Dr. Carl Hart, escreve em seu livro que o contribuinte americano gasta aproximadamente $35 bilhões por ano combatendo esta guerra. Mas as drogas em questão permanecem tão abundantes, se não mais, do que eram em 1981, quando o total do orçamento anual de controle de drogas dos EUA era de meros $1,5 bilhão”. 

A diferença agora, descreve Hart, é que hoje, dezenas de milhares de pessoas estão morrendo de overdoses relacionadas a drogas, com os opióides sendo o “principal culpado”. Mas não é tão simples, quando a “crise dos opióides” é, na realidade, “uma crise de coleta e relato de dados”.

O autor afirma que a tese do livro é muito simples: é sobre liberdade, desde que você não interrompa a capacidade de outras pessoas de buscar sua liberdade. Ele deseja que as pessoas entendam que a liberdade e a busca da felicidade estão protegidas em nosso documento fundador. É a essência de ser humano.

Uso pessoal de drogas e a sociedade

No livro, Hart é muito aberto sobre seu próprio uso de drogas.

“Isso é como sair do armário das drogas, como profissional e como pai”, é uma grande questão que tenho que enfrentar e ainda luto com ela. O ponto mais importante para mim é que vivo como o homem que afirmo ser, e isso significa que tenho que pensar em como meus filhos me veem. Eles sabem que cuido de minhas responsabilidades com eles e que me preocupo com nossa comunidade em geral.”

High Price: A Neuroscientist’s Journey of Self-Discovery That Challenges Everything You Know About Drugs and Society

Este é o segundo livro publicado do neurocientista. Sua primeira obra, publicada em 2013, clançou “High Price: A Neuroscientist’s Journey of Self-Discovery That Challenges Everything You Know About Drugs and Society”: que mescla memórias, ciência popular e políticas públicas, lançando luz sobre equívocos comuns relacionados às drogas ilegais. 

Hart aborda o tema com uma perspectiva única, combinando suas experiências de crescimento em um bairro afro-americano pobre e assolado pelo crime com sua trajetória profissional como neurocientista de pesquisa. Ele relata sua infância, serviço militar, anos acadêmicos e sua ascensão ao posto de professor titular na Universidade de Columbia.

Com os desafios de assimilar normas e linguagem culturais brancas para alcançar o sucesso no mundo acadêmico. O autor recorre a estatísticas sobre crimes relacionados a drogas e detalhes de suas pesquisas laboratoriais, argumentando que as drogas são mais um sintoma do que a causa real de crimes e pobreza. 

Segundo Hart, elas ocultam problemas mais profundos, como falta de educação, racismo, desemprego e desespero. Concluindo sua obra, ele defende a descriminalização das drogas, sustentando que suas pesquisas revelaram que os perigos associados às drogas são amplamente mal compreendidos. Uma redução no estigma e um aumento no diálogo provavelmente diminuiria o número de mortes relacionadas a drogas. Carl defende políticas de drogas baseadas em evidências científicas e direitos humanos, em vez de medos irracionais e sensacionalismo.

Desafiando percepções e mitos

Em particular, o psicólogo acredita que pode ser surpreendente para o público aprender sobre seu uso recreativo de heroína. Ele acredita que é uma boa oportunidade para modelar um relacionamento responsável e saudável com as drogas (seja heroína, cannabis ou até álcool). 

Rumo a um futuro progressista

Hart está se mudando para a Suíça, que ele diz ter a política de drogas mais progressista. “O que eu realmente gosto é que eles cuidam de seu povo. Eu só quero ser deixado sozinho em um lugar quieto e monótono. Esse é o apelo.”

Após este livro, é improvável que ele seja deixado sozinho por muito tempo, né?

Fontes: